Os personagens são mais reais que nós mesmos.

"Manuel Bandeira chegou pra mim um dia, quando eu e meus personagens éramos odiados, e disse:' Nelson, por que você não faz uma peça em que os personagens sejam assim como todo mundo?' Eu respondi da forma mais singela: 'Mas meu caro Bandeira, meus personagens são como todo mundo.' Porque uma coisa é verdade: quem metia ou mete o pau no meu teatro está procedendo como um Narciso às avessas, cuspindo na própria imagem." (Nelson Rodrigues).
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Nelson mostrou seus personagens em seu íntimo, às vezes no limite da loucura. Ele nos igualava a todos os personagens, que iam da máscara à uma sinceridade "insana", conforme a situação a que eram testados.
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"... os realmente virtuosos, gente honesta pra burro, esses é que gostavam das minhas peças. Falavam comigo, adoravam o texto... Mas as depravadas tinham um santo horror. Isso eu aprendi com o meu teatro." (N.R.).
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. Retratou a vida como ela era. Fez com que a sociedade moralista, principalmente a classe média e alta, se visse sem roupas diante de todos os leitores, espectadores e de si mesmos. Tirava a grossa maquiagem e mostrava seus rostos iguais aos rostos de todo mundo, em seus desejos e intimidades. E ainda ía mais a fundo. Ia para o inconsciente coletivo. Por ser coletiva essa demonstração do inconsciente, despertava a ira dos mais pervertidos, dos mais "santos" ao se verem nus, desprotegidos dos milhões de olhos do mundo...
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"E, quase sempre, o homem nasce, vive e morre sem ter contemplado jamais o seu rosto verdadeiro, e sem ter jamais conhecido seu nome eterno.". (N.R.).
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Segundo Nelson, amor nada tem a ver com felicidade. Quem estudar sobre ele lerá um trecho em que diz que o seu sonho, desde pequenininho, era ter um único amor a vida inteira e ser fiel a esse amor, mesmo após a morte. Ele dizia que se a(o) viúva(o) casava de novo, é porque não tinha amado realmente. Esse era o tema da vida e das peças de Nelson. O amor!
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."A educação sexual deveria ser ensinada por veterinários. O homem precisa aprender a amar".. .
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Frases desse tipo estão presentes em vários depoimentos do Nelson. Ele falou do amor, que o homem só deveria beijar na boca uma única mulher a vida inteira, que se não conheceu seu verdadeiro amor, não deveria beijar. E seus personagens eram punidos pela falta de sentimentos mais "nobres". Ele não os perdoava. A violência estava quase sempre presente em seus desfechos. Eles se uniam por baixas motivações como ciúmes, possessividade, sexo, inveja... Sempre de uma maneira obsessiva. Por mais que tentassem ou apresentassem, de início, indícios de bons sentimentos, em algum momento, o que havia de verdade, construído dentro deles, surgia aniquilando qualquer vestígio de boas intenções. E isso os levava a um fim trágico, já que não controlavam a si mesmos, muito menos a sua sorte.
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Uma cena ótima de "Bonitinha, mas Ordinária": Trecho do filme com José Wilker, Carlos Kroeber e Sônia Oiticica. .
"Você é um ex-contínuo, põe isso na sua cabeça!"

.Além dessa capacidade de nos mostrar a realidade tão mórbida como é, ele era um poeta. Ele escrevia seus textos com tamanha poesia que, justamente por isso, quando essa realidade chega, produz um choque.

Seria ele um pessimista?

Pessimista, principalmente, quanto às boas intenções de seus personagens. Mas não parava por aí...

Estava sempre dizendo que gostaria de ter sido fiel e que se não foi, o defeito era dele. Vivia saudosista pela Belle èpoque. Se existiu uma época boa, não era a dele. Se a mulher era pura, então era fria. A adúltera ainda era mais pura, porque estava livre do desejo que apodrecia nela (sempre havia o desejo oculto, a insatisfação... E quando buscavam seus desejos de uma forma aberta e limpa, terminavam em tragédia), porém, em suas crônicas, ele destacava e percebia a humanidade em alguém, quando todos (a unanimidade da época) viam apenas um rótulo.

Eu também não estou aqui para rotulá-lo, nem seria possível. Mas ninguém está acima do bem e do mal, nem mesmo ele. Muitos vão dizer: Ele era realista. Tá, mas Nelson realista via e conduzia seus personagens através de uma ótica mais pessimista ou mais otimista em relação a humanidade. Os personagens, por mais que tentassem se salvar, manter uma linha nobre de sentimentos, digamos assim, são levados contra si mesmos e por si mesmos, por suas baixas motivações de vida, a seus destinos trágicos. Eles possuem um deus bastante severo, que não os perdoa. Por outro lado, por mais sombria ou “baixa” que fosse sua personagem, Nelson sempre buscava nela uma humanidade, algo que a tornasse como todos nós. (Como nos "personagens" citados em suas crônicas). Ninguém era ruim o bastante nem bom demais. O canalha rodrigueano é belo justamente porque é humano. Claro, não é literalmente da vida como ela é, esse canalha. À sua humanidade é acrescentada uma malandragem bem colorida. Mas vemos nele e em todos os outros uma inegável humanidade. Portanto, concluo que Nelson tinha uma ótica otimista da humanidade. Digo Nelson. Mas o personagem Nelson, o escritor, possuía ua ótica bastante pessimista. A poesia de NELSON servia como pano de fundo para o "desagradável" MUNDO RODRIGUEANO. Agora, que ambos são realistas, não resta a menor dúvida.

Colorido, só no teatro!

Um canalha da vida real, com o colorido rodrigueano? Aliás, colorido não, de branco!!! 

Nelson advinhou? Era mesmo um profeta? Seja lá como for, que as semelhanças são impressionantes, não há dúvida.
O personagem principal dessa história real era obcecado por virgens (como em "Álbum de Família"), só andava de branco (como em "Os Sete Gatinhos")... comprava a virgindade das moças pobres, moças entregues pelos próprios pais (Álbum de Família), cometia incestos com a frequência e naturalidade dos personagens de "Álbum...", com a única diferença de que ele era apenas imoral e não também amoral, como na peça, já que ele dava um jeitinho de evitar as evidências. Claro que igualzinho, jamais seria. Mas uma coisa é certa. Prova-se mais uma vez que não era Nelson o tarado, imoral, etc, etc, etc. Como até hoje é taxado. Imoral é a vida que ele teve o desprazer de observar pelo buraco da fechadura. E a vida como ela é, com ou sem aspas, foi conhecida e reconhecida por ele e por todos que leram suas obras.

"Não há nada que fazer pelo ser humano:o homem já fracassou."


E se, com isso tudo, com todo o holofote colocado por ele na sujeira humana, ele conseguiu que o ser humano cometesse menos pecados, que se salvasse por meio de uma catarse, não sabemos. Sabemos que não podemos culpá-lo pela podridão humana, vista por ele de forma nua e crua. Nos resta, então agradecê-lo por sua genialidade. Sua capacidade de revelar a nós isso tudo, mas com a beleza e a poesia de sua literatura. Oferecendo uma chance de fazer melhor. De não fazer. De sentir nojo só de pensar, enquanto admiramos, amamos ou odiamos os personagens vivos, vivíssimos e mais humanos do que nunca, no palco, no cinema, nos livros, na nossa imaginação...  


A ficção para ser purificadora precisa ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de todos nós.”

Clique aqui e veja a matéria que deu origem a essa postagem.

A vida como ela é...

“... os vizinhos vigiavam-se uns aos outros; maridos e mulheres viviam sobre o mesmo teto com as primas e os cunhados, numa latente volúpia incestuosa. Como não havia motéis, os encontros amorosos se davam em apartamentos emprestados por amigos – donde o pecado, de tão complicado, tornava-se um obsessão”. Ruy Castro.

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Diabólica (prévia):

Com Michel Loureiro e Geórgia Damatis

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___________________________________________________________ Futura sogra: "Meu filho, o importante num casamento não é a esposa, o importante é a sogra"... e por aí vai!

Muito bom! __________________________________________________________ Mártir em casa e na rua: Calloni, como sempre, está arrasando! __________________________________________________________ Uma Senhora Honesta: __________________________________________________________ Adaptado de um conto de Nelson Rodrigues, da série de contos da “A vida como ela é”, o áudio, que consiste em diálogos e narrativas, foi ambientado nos anos 50. Foi criada, então, a idéia de "Novela de rádio" que, como o texto focado nos anos 50, teve seu ápice também nessa época. Nosso projeto é criar uma série de contos para o formato "Novela de rádio". . . . . Com um humor ácido e uma linguagem direta, com diálogos pobres (“só eu sei o trabalho que dá empobrecê-los”) e intensos, próprios do autor, vai sendo retratado, intimamente, o cotidiano da classe média brasileira dos anos 50. Claro que não pretendemos nos limitarmos a essa época, mas a princípio, é o que temos em mão. . . . "Minhas peças têm um moralismo agressivo. Nos meus textos, o desejo é triste, a volúpia é trágica e o crime é o próprio inferno. O espectador vai para casa apavorado com todos os seus pecados passados, presentes e futuros. Numa época em que a maioria se comporta sexualmente como vira-latas, eu transformo um simples beijo numa abjeção eterna.". Nelson Rodrigues. . . . A adaptação foi feita mantendo-se a essência do universo rodriguiano e o argumento do conto. O áudio contém diálogos e ações que não fazem parte do conto original, porém estão totalmente dentro do contexto. Em contra-partida, as narrações foram diminuídas para se harmonizarem com a linguagem do rádio. __________________________________________________________ ÁUDIOS:


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Com Ailton Sales (Valverde), Geórgia Damatis (Lucy), Iremar de Paula (Narrador e anônimo - telefone) e Luciana Telles (vizinha). O PRIMO E A SELVAGERIA: .


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Com Ailton Sales (Rui), Geórgia Damatis (Luciana e vizinha) e Iremar de Paula (Narrador e vizinhos).

FRASES de Nelson Rodrigues:





""Uma peça de teatro tem que ser um tapa na cara do espectador."; .

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 "Perto do Chico Buarque, todo homem é um corno em potencial!"; . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
"Qualquer bobagem em francês soa como uma dessas verdades inapeláveis e eternas".
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."...Achava que o capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: _ do que a experiência concreta do socialismo.";



"Se eu apoiasse qualquer ato de violência, da direita ou da esquerda, seria um canalha.";

"O que estraga a missa é o padre e os crentes.";


"A educação sexual deveria ser ensinada por veterinários. O homem precisa aprender a amar.";
.
"Todo amor é eterno, se acabou não era amor.";
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"Toda mulher bonita é uma ressentida contra si mesma.";.
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"Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.";
.
"Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza."; .


"A mulher pode ser grã-fina. O homem tem que ser macho."; .


"O ginecologista é o amante da mulher honesta."; .


"O casamento de amor devia ter o sigilo do adultério. Nada de proclamas. Ninguém devia saber, jamais.";
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"E, quase sempre, o homem nasce, vive e morre sem ter contemplado jamais o seu rosto verdadeiro, e sem ter jamais conhecido seu nome eterno.";
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"Quem tem pudor quando gosta?"
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"Se os fatos estão contra mim, azar dos fatos.";
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"Não há solidão mais vil do que a do sexo sem amor.";
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"Nunca a mulher foi tão pouco mulher, nunca o homem foi tão pouco homem. O raciocínio é simples: - se a mulher é menos mulher, o homem será menos homem.";
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"O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido não deve saber nunca!";
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"Só acredito nas pessoas que ainda ruborizam...";
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"Enquanto um sábio negro não puder ser nosso embaixador em Paris, nós seremos o pré-Brasil".
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"Não reparem que eu misture os tratamentos de tu e você. Não acredito em brasileiro sem erro de concordância".
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"Há coisas na vida do indivíduo que ele não conta nem ao padre,nem ao piscológo, nem ao médium depois de morto.";
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"O pudor é a mais afrodisiaca das virtudes.";
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"Se um dia, a vida lhe der as costas... passe a mão na bunda dela.";
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"Grã-fina tem nariz de defunto." ;
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"As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado.";
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"Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.";
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A ficção para ser purificadora precisa ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de todos nós.”;
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Meus diálogos são realmente pobres. Só eu sei o trabalho que me dá empobrecê-los.”;
.
"Sou um pobre nato e, repito, um pobre vocacional. Ainda hoje o luxo, a ostentação, a jóia, me confundem e me ofendem.";
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"Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.";
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"Acho a liberdade mais importante que o pão.";
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"Eu não confio em mulher de pele boa.";
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"Só existem duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez. Tenho dúvidas quanto ao universo.";
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“Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.”;
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“Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação.”;
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A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.”;
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"Na "mulher interessante", a beleza é secundária, irrelevante e, mesmo, indesejável. A beleza interessa nos primeiros quinze dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual. Era preciso que alguém fosse, de mulher em mulher, anunciando: - "Ser bonita não interessa. Seja interessante!";
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"Linda és tu! Linda! E és doce... Amorosa... E triste! Tens tudo o que não presta.";
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"Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora. ";
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"A adúltera é mais pura porque está livre do desejo que apodrecia nela.";
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"É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.".
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"O ginecologista é o amante da mulher honesta."
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"Não há nada mais inapelável do que uma bofetada. Para uma bofetada não há perdão.".
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"O pior da bofetada é o som".
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"A mulher pode ser grã-fina. O homem tem que ser macho. ";
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"Uma atriz ou um ator não devia ter nada com a vida real. Por exigência contratual, não poderia deixar o palco, nunca. A Duse, a Sarah Bernhardt ou qualquer outra grande atriz age e reage, cá fora, como uma canastrona. ";
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"Não há nudez mais humilhada, mais ofendida, mais ressentida que a da autópsia. Velhos, moços, meninas, mocinhas, garotos, todos são espantosamente despidos. Ficam tão nus. ";
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"Em 1911 ninguém bebia um copo d´água sem paixão. ";
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"Não há nada pior do que a crueldade do bom. Nas suas maldades excepcionais, o bom é capaz de invadir um berçário e chupar o sangue das criancinhas como groselha.";
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"Sua mãe era fria... Fria e pura... E era pura porque era fria". ;
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"Não há nada que fazer pelo ser humano:o homem já fracassou." ;
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"O marido não deve ser o último a saber, compreendeu? O marido não deve saber nunca.";
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"O asmático é o único que não trai.";
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"Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma.";
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"O biquíni é uma nudez pior do que a nudez.";
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"Não admito censura nem de Jesus Cristo.";
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"Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.";
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"Deus só freqüenta as igrejas vazias.";
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"Não ama seu marido? Pois ame alguém, e já. Não perca tempo, minha senhora!";
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"A fome é mansa e casta. Quem não come não ama, nem odeia." ;
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"A verdadeira grã-fina tem a aridez de três desertos."
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"No passado, a notícia e o fato eram simultâneos. O atropelado acabava de estrebuchar na página do jornal.";
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"Nossa ficção é cega para o cio nacional. Por exemplo: não há, na obra do Guimarães Rosa, uma só curra.";
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"Nunca a mulher foi menos amada do que em nossos dias.";
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"O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento.";
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"Enquanto um sábio negro não puder ser nosso embaixador em Paris, nós seremos o pré-Brasil.";
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"Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.";
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"Morder é tara? Tara é não morder.";
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"Todo tímido é candidato a um crime sexual.";
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"Só há uma tosse admissível: — a nossa.";
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"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.";
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"Amar é ser fiel a quem nos trai.";
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"O carioca é o único sujeito capaz de berrar confidências secretíssimas de uma calçada para outra calçada.";
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"Num casal, pior que o ódio, é a falta de amor.";.
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"Geralmente, o puxa-saco dá um marido e tanto.";
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"Toda coerência é, no mínimo, suspeita.";
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"Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.";
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"Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.";
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"Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação.";
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"A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.";
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"O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho.";
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"Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.";
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"O presidente que deixa o poder passa a ser, automaticamente, um chato.";
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"O ônibus apinhado é o túmulo do pudor.";
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"É impossível ser ridículo dentro de uma Mercedes.";
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"Num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.";
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"No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, se quiserem acreditar, vaia-se até mulher nua.";
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"Uma dor de viúva dura 48 horas.";
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"Toda mulher gosta de apanhar. O homem é que não gosta de bater.";
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"O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: — o da imaturidade.";
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"Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhores que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém.";

"Nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de 'ilustre', de 'insigne', de 'formidável', qualquer borra-botas.";


"A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose. Os admiradores corrompem.";
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"Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível.";
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"Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.";
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"A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades.";
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"O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. Se puder ser imbecil para todos, melhor ainda.";
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"Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.";
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"Se os homens de bem tivessem a ousadia dos canalhas, o mundo estaria salvo";
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"Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.".
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"Sempre digo que o pior da bofetada é o som. Se fosse possível uma bofetada muda, não haveria ofensa, nem humilhação". . .


"Sem sorte, não se chupa nem um chica-bom. Você pode engasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha".

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"A maioria das pessoas imagina que o importante, no diálogo, é a palavra. Engano, e repito: – o importante é a pausa. É na pausa que duas pessoas se entendem e entram em comunhão".
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"Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina, quando tem um filho, melhora.


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"Corno em família não conta".
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"O cretino fundamental é aquele que tenta deturpar o óbvio ululante".


Para mim, a liberdade é mais importante que o pão


Falando nisso...
Segue texto de meu amigo Paulo Gomes, do site: http://www.blogdopaulogomes.blogspot.com/


A SAGRADA LIBERDADE DE EXPRESSÃO NAS MÃOS DOS ABUTRES E CARRASCOS

Por Paulo Gomes


Um dos rostos mais terríveis dos regime de arbítrio e de autoritarismo é a face da censura, da perseguição à liberdade de pensamento e de expressão. Essa foi uma das lutas que mais motivou o povo brasileiro a enfrentar o terrível regime de ditadura militar que infelicitou o nosso país por mais de 20 anos.

Foram corajosos e brilhantes combatentes, jovens estudantes, artistas, jornalistas, compositores, mães, pais, trabalhadores em geral. O sonho de termos novamente o direito de votar e de escolher os nossos governantes estava atrelado ao direito de termos novamente restaurada a LIBERDADE. a Vontade de poder dizer o que pensávamos sobre quem nos governava. De publicar, encenar, compor, debater sobre tudo, principalmente sobre as ações de governo que diretamente interessa às nossa vidas, às coisas do nosso país.

É absurdo se imaginar e constatar que depois de tanto suor, lágrimas e sangue derramados, observamos hoje sob o comando e desejo daqueles que outrora eram combatentes fortes desse arbítrio chamado censura, ver ela retornar lenta, cega, sorrateira e sutilmente.

Querer censurar o que é dito nas rádios, publicado nos jornais, revistas e agora nessa democrática e eficaz ferramenta chamada internet, é sinal claro de que a coisa está mais feia do que pensamos.

Ou reagimos, ou seremos de novo dominados, não com algemas, mas com fortes mordaças. Outro tipo de censura ou malversação do direito a livre expressão, é a manutenção desse modelo maldito que permite que emissoras de rádio e de TV sejam de propriedade de políticos e de grupos religiosos. Eles fazem comunicação social para quem?.. Pra quê?...

O que ganha a sociedade com as programações por eles produzidas? Que compromisso tem eles com a informação livre, isenta, democrática? E ainda com a pluralidade cultural, com a oportunidade a todas as expressões que representam de fato o conjunto do pensamento e da criação dos nossos artistas? Desejam ter emissoras de TV e rádio para qual propósito mesmo? Para prestarem um serviço social ou para engordarem suas contas e cofres nos seus projetos individualistas, mesquinhos e estratégicos?

Há algum tempo atrás a ex-deputada Dirce Tutu Quadros, filha do ex-presidente Jânio Quadros vaticinou: “O ciclo vicioso é o seguinte: eles querem ter dinheiro para chegar ao poder, e o poder para ganharem mais dinheiro!” Nisso está contido o projeto de ter emissoras de TV e rádio. Querem produzir e propagar lixo nas suas programações jornalísticas e musicais com o propósito de atrofiarem intelectualmente ainda mais o povo que mal porcamente tem acesso a um sistema de educação falido.

Comunicação social é serviço de prestação pública. A concessão, como o nome diz, é um direito consentido, mas não eternizado. Quando haverá uma revisão ou política que estabeleça se aquele canal está mesmo cumprindo com a obrigação descrita pela Constituição do que é um serviço de comunicação social?

Que se confisquem os canais e prefixos e abram concorrências para novos projetos. Políticos e Igrejas estão matando o rádio e a TV com seus projetos mesquinhos. Com seus programas e práticas administrativas predadoras, amadoras, perversas.

O que se vê é a massificação do ridículo, da banalização, do interesse explícito do projeto pessoal e politiqueiro. Da total falta de qualidade ou da máxima do "quanto pior, melhor"...

Da lavagem cerebral que de cabo a rabo,impõe uma linha religiosa que esmaga todas as outras, um absurdo que nem com a revelação de provas cabais de crime financeiro, consegue ser contido. O uso e abuso do volume de dinheiro de deixar humilhada a caixa forte do

Tio Patinhas...

Políticos que não contentes em ter emissoras, ainda fazem cursos piratas e ‘mandrakes’ para se habilitarem a falar nos microfones como 'radialistas'. Isso precisa ter um basta!



Mas como esperar uma ação moralizadora quando sabemos que os governos são os principais protagonistas e promotores da suja e promíscua troca de favores políticos e dessa orgia da distribuição de canais de rádio e de televisão, uma das mais conhecidas e cobiçadas moedas de troca no sujo balcão de negociatas?...

...E agora mais grave ainda, com a censura à fala de comentaristas, jornalistas ou quem quer que seja, que venha a denunciar os abusos dessa sujeira toda.

Se deixarmos que o sagrado direito à nossa fala seja cerceado, estaremos sendo derrotados ainda mais facilmente por essas figuras abomináveis que usam justamente a comunicação como ferramenta de seus projetos iníquos. Usemos pois, a comunicação para denunciá-los, para combatê-los, para desmascará-los. Para exigir que a LEI seja cumprida e que o serviço público de comunicação social seja moralizado e normalizado.

Ruy Castro escreve ao Joffre Rodrigues sobre VESTIDO DE NOIVA - O filme:

"Vestido de Noiva", de Joffre Rodrigues, é o melhor filme baseado em peça de Nelson Rodrigues.
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Em consequência, é também o melhor filme brasileiro baseado em qualquer peça de teatro. Se a unanimidade discorda de mim, pior para a unanimidade. .
Joffre conseguiu o milagre de, não apenas verter uma peça revolucionária para o cinema, mas o de fazer um filme que existe independentemente da peça em que se originou. Quero dizer que não se trata de uma simples adaptação muito bem sucedida, mas de uma autêntica recriação -- em termos estritamente cinematográficos, ou seja, usando todos os recursos de que o cinema é capaz.
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Na peça, os planos de realidade, memória e alucinação no personagem de Alayde se fundem e se confundem, como queria Nelson. Mas o teatro, mesmo quando genial, tem seus limites. Não se pode fazer um ator trocar de roupa e de cenário de uma cena para outra, instantaneamente. Mas o cinema pode fazer isto e muito mais, e de um plano para outro -- em 1 centésimo de segundo, tudo pode mudar.
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Joffre explodiu aqueles limites. Não há passado, lembrança ou delírio para confrontar com a realidade. É tudo realidade (ou talvez tudo seja passado, lembrança ou delírio). Seu "Vestido de noiva" lembra "O ano passado em Marienbad", de Alain Resnais, visto por muitos na época -- 1960 -- como o único filme do cinema que não poderia existir em nenhum outro veículo.
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Os críticos escreveram que o filme era "teatral". É exatamente o que ele não é. Tente botar no palco o que Joffre Rodrigues botou na tela -- da maneira como ele o botou. Se alguém conseguir, troco de nome e deixo de me chamar Ruy Castro.
..
Valeu, Joffre?
Abraços,
Ruy"
. (Foto: Bel Pedrosa)
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. Grande Ruy Castro, mudo de nome também.

VESTIDO DE NOIVA, de Joffre Rodrigues - A belíssima adaptação da peça mais famosa de Nelson (e uma das melhores do Brasil e do mundo) para cinema

A adaptação do roteiro foi uma junção da prioridade na fidelidade ao texto com o fazer cinema. E não foi feito apenas cinema, mas sim cinema sobre uma peça de Nelson Rodrigues que ninguém havia se atrevido a tentar. O filme foi recheado de detalhes, detalhes que não pertenciam à obra original. O início do filme é também o início da vida na casa (que é um tema importantíssimo da obra), inclusive sendo mobiliada. Começa o filme, começa a vida na casa. . A poesia e a leveza do plano da alucinação é o ponto mais forte da obra, pois é o que buscava a alma de Alaíde e ela foi atendida no filme. Seus sonhos foram legitimados (a sua alma foi priorizada). O peso da realidade foi bem dosado. A memória mostra as baixas motivações das personagens e a visão bem humorada das situações desagradáveis foi uma opção genial, que não mudou o caminho do texto, só a forma de contar. Uma feliz forma de contar. Ótimas músicas no bordel. Roteiro cheio de detalhes significantes, percebidos não só de uma vez, mas a cada reprise do filme, encantando por seus significados. Bela direção de atores, que estão harmonizados, em sintonia e generosos uns com os outros. . Todas as mudanças do texto reforçaram a intenção da obra: O sutil humor, a cena do altar, o bouquet da Clessy para Alaíde, o Pedro como cafajeste (autêntico cafajeste rodrigueano)...

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A Marília Pêra foi dirigida, e contribuiu, para que madame Clessy tivesse um humor que não existia no texto. Joffre, também em outros momentos, foi o responsável por pitadas de humor no filme, mais uma vez inexistentes na obra original. Um humor com leve tom de ironia. . A cena em que madame Clessy responde: “Punhalada não, na-va-lha-da”, foi genial. Foi outra modificação que beneficiou a própria obra, pois reforçou a personagem do texto, já que a Madame Clessy se envaidecia por ter sido assassinada por um menino de 17 anos, além do humor.
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O palitinho cai da boca de Pedro quando ele vê Alaíde simulando ser madame Clessy, mas “segura” o desejo e a repreende por seu comportamento “imoral”. Ele a queria como a esposa de sua visão machista (hipocrisia e a repressão sexual sempre retratada por Nelson e valorizada na cena do palitinho).

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Alaíde, por sua vez, quer fugir da repressão moral em que vive se refugiando na alucinação, mas no seu sonho de liberdade, de ser uma prostituta de classe, se entregaria a Pedro (o cliente do bordel tem a cara de Pedro). Porque ela queria Pedro, mas não na vida que levava. Ela, como prostituta, teria a sonhada liberdade estando, ao mesmo tempo, com seu amor Pedro. .
Nesse embaraço da fuga pelo inconsciente, Alaíde cai em outro engano. Ela se refugia no mundo da alucinação, o mundo que desejava, mas quando está nesse mundo, tenta buscar sua vida de volta, já que fica vazia, não consegue viver sem um passado. Estava presa à sua realidade frustrante, motivada por sentimentos viciosos e baixos, dos quais não conseguia se desfazer, mesmo quando pensava estar vivendo seu sonho de amor e liberdade. (visão de mundo pessimista – Nelson não perdoa). Quando ela entrega o bouquet à Lúcia, ela mostra que perdoou Lúcia e finalizou sua relação com o passado. Em seguida, Clessy tem uma atitude de generosidade, amizade e piedade para com Alaíde, entregando outro bouquet à ela, indicando que finalmente Alaíde seguirá adiante. (Belíssima cena). .
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O nu no hospital: Esse nu chocou muita gente, mas não se pode dizer que havia vulgaridade nesse nu, se não havia nesse nu nem erotismo! E foi por isso que chocou, porque foi um nu sem amor. Sem intenção de amor, um nu de morte. Quando os médicos tiraram a roupa de Alaíde naquele hospital daquela forma tão fria, rápida (enquanto ela está gemendo em delírios), ela se assemelhou a um objeto. Um pedaço de carne. Quando um dos médicos falou, no meio dos comentários sobre a cirurgia, “bonito corpo”, a idéia de Alaíde como objeto e a frieza dos médicos foram reforçadas. Por isso esse nu chocou, porque foi um nu sem amor, sem glamour, pessimista (como Nelson) e real. Por trás do desejo sexual está o amor, a necessidade de ser amado(a). Mas não tem nenhum amor ali, só o corpo. Se o desejo sexual se contrapõe à morte, então essa nudez foi uma forma de representar a morte. Essa cena fez a gente refletir em como fomos ou seremos tratados numa situação dessas. Nos lembrará que estaremos nus, dessa forma. De uma forma morta. Ou seja, já entramos sem sentido pela anestesia e já somos tratados como mortos.
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"Não há nudez mais humilhada, mais ofendida, mais ressentida que a da autópsia. Velhos, moços, meninas, mocinhas, garotos, todos são espantosamente despidos. Ficam tão nus". Nelson Rodrigues.

. O nu da cena do bordel, da imaginação da Alaíde, deveria chocar mais, pois estava cheia de erotismo. Mas não, foi uma cena bonita, porque foi um nu de amor e não de morte.

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No final, quando se passam os créditos, repete-se a fala de Alaíde: “Ou Ave-Maria de Gounod ou de Schubert, outra não serve”. Com a música de fundo e a voz de Alaíde justo depois que, já morta, passa o bouquet para Lúcia, ou seja, desiste, se resigna, representa, com toda a ternura e angústia possível, o sonho de casamento acabado. .

As mudanças para se fazer cinema foram feitas, mudanças que realçaram mais ainda a obra original. Basta perceber a quantidade de detalhes e seus significados, mas deve-se estar com o paladar bem apurado para percebê-los, porque realmente essa obra não é para qualquer um. Ponto para a excelente direção do Joffre Rodrigues, que, além de tudo, soube escolher muito bem os atores e, mais, soube dirigí-los brilhantemente. Ponto para os atores que souberam receber a sugestão do diretor e, mais importante, souberam aplicar essa sugestão divinamente. Foi um lindo trabalho!

Vestido de Noiva _ Trailer:

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Antes mesmo de ser lançado no Brasil, "Vestido de noiva" já tinha na bagagem sessões em festivais de Paris, Nova York e Miami, onde foi ovacionado!
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O filme levou o Troféu Estrela do Mar de Melhor Filme e nas categorias Melhor Produção (Joffre Rodrigues), Melhor Direção de Arte (Alexandre Meyer), Melhor Atriz Coadjuvante (Letícia Sabatella) e Melhor Figurino (Rita Murtinho). .
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Antes da estréia, teve seu roteiro analisado por José Wilker, Fernanda Montenegro, Camilla Amado e Sábato Magaldi, tendo sido aplaudido e admirado com unanimidade! . . .
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. "Acredito que o filme do Joffre Rodrigues, Vestido de Noiva, tem potencialidade para ser um filme que encontre o seu público. É um filme com boa qualidade, com belo acabamento técnico, boas atuações e com um roteiro, a partir da peça Vestido de Noiva, primoroso. É inspirado em uma das melhores peças de teatro já escritas no Brasil. Agora, para este filme entrar no mercado americano é uma coisa de “adivinhação”. Este mercado é extremamente competitivo, restritivo para qualquer produto estrangeiro, em função do poder das grandes distribuidoras e exibidores, fazendo com que o público tenha pouco acesso ao cinema estrangeiro.” (José Wilker).

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Sobre Joffre Rodrigues:

Joffre Rodrigues e a atriz Letícia Sabatella

Iniciou sua carreira no cinema em 1963, quando produziu “Bonitinha mas Ordinária”, um filme baseado na obra de seu pai, Nelson Rodrigues.

Em 1964 produziu “A Falecida”, também de Nelson Rodrigues, com Fernanda Montenegro e direção de Leon Hirszman - um verdadeiro sucesso perante a crítica especializada no Brasil e no Exterior.

No ano seguinte produziu em teatro duas peças: “Vestido de Noiva”, marco da dramaturgia nacional e “Toda Nudez será Castigada”, posteriormente transformada em filme por Arnaldo Jabor, também com muito sucesso em todo o mundo, ganhando inclusive o “Urso de Prata” no Festival de Berlim de 1975.

Após dirigir alguns curta-metragens, comerciais e estudar cinema nos Estados Unidos durante um ano, trabalhou na TV Globo como produtor e diretor e no Jornal dos Sports como Relações Públicas.

Depois de um período de 7 anos afastado do Brasil, retornou e produziu e roteirizou seu maior sucesso até hoje “Perdoa-me por me Traíres” ( do qual foi também roteirista ) que bateu recordes de bilheteria.

Em seguida produziu “Tanga - deu no New York Times?” onde o nosso grande e saudoso humorista e cartunista Henfil, que roteirizou e dirigiu o filme junto com Joffre.

Em 1989 produziu “Boca de Ouro”, se aventurando a uma brilhante adaptação do texto, transplantando o universo da contravenção do jogo do bicho que era o original do texto escrito em 1959, para o universo do trafico de drogas, mais adequado à realidade da época em que o filme foi feito. Dirigido por Walter Avancinni, foi vendido para a 10db para distribuição universal. Em 1992 realizou em regime de co-produção com aquela empresa americana o “sequal” Boca, continuação em inglês do “Boca de Ouro”.

Em 1993 foi convidado pela KCK Productions de NY para produzir o filme “The Monk and the Hangman’s Daughter” que veio a ser dirigido por Walter Lima Junior. No “Monk” atuou como produtor, produtor executivo, “line” producer e diretor de pós-produção.

Tendo militado criativamente em todas as produções que realizou Joffre, atendendo a um antigo pedido do pai, adaptou, produziu e dirigiu “Vestido de Noiva”, a peça mais importante do Teatro Nacional.

Traduziu doze peças para o inglês, todas já publicadas e cujos livros estão sendo vendidos em todo o mundo.

Projeto futuro: "Tanga - Deu no New York Times?" Através da JBR Filmes, produtora em que é titular, se prepara para um novo projeto: Transformar o filme em Desenho Animado. Roteiro original de Joffre Rodrigues ( Paralelo Zero ) e do saudoso cartunista Henfil ( Kubanin ).

Projeto aprovado: "Floresta Ferida". Um filme de longa-metragem com um grande apelo ecológico. Em total conformidade com os temas da atualidade, tendo com linha central o desmatamento da Floresta Amazônica.

Site: http://jbrfilmes.com/

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Entrevista: . "Ainda em vida meu pai me pediu para fazer este filme. Como eu era só produtor, sempre achei que ele tivesse me pedido para produzir. Mas eu teria que entregar na mão de um roteirista, e eu queria fazer algo leal ao texto. Resolvi fazer o roteiro, que foi delirantemente aplaudido por pessoas como Fernanda Montenegro, Ruy Castro, Camila Amado, etc. Quando "nêgo tarô" pelo roteiro, eu falei: então vai me caber dirigir esse filme, porque se der para um diretor, ele vai mexer no roteiro. Isso começou em 1996. Levei oito anos para captar patrocínio e dois para fazer o filme. Pode parecer piada, mas é verdade.”

“Eu não tenho charme para captar, é a coisa mais incrível do mundo. Eu tinha um projeto maravilhoso, um elenco fantástico, mas não conseguia patrocínio. Provavelmente, o cara me via, então com 60 anos, gordo, cabelo branco, primeiro filme a ser dirigido, e pensava: só vai dar meleca...” .
. A adaptação

“Primeiro, ninguém via os elementos cinematográficos no texto original como eu via. Então eu pensei que ou eu estava errado, ou eles. Mas quando entreguei o roteiro para todas estas pessoas que falei, todo mundo aprovou. Segundo a Camila Amado, foi o melhor roteiro cinematográfico da vida dela.”

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“A Simone (Spoladore), pediram para ela ir lá em casa. Eu cheguei em casa e falei: "Ih, caramba, que mulher linda". Para a Madame Clessi, eu inicialmente tinha pensado na Vera (Fischer), mas ela já me assustou logo com o negócio de grana. Para mim era uma fortuna. Acabei pagando a mesma coisa para a Marília (risos). Mas aí você se encontra com a Marília e faz xixi nas calças. É um desbunde. A mulher, com 62 anos de idade, faz cenas de sexo. E com aquele esplendor, com aquela atuação que é dela mesma.” .
Na foto: Nelson e Joffre
A paternidade

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“Com exceção d'A Falecida, meu pai gostava de todas as montagens de suas obras. Tinha o nome dele, ele achava ótimo. Mas ele achava a Falecida do Leon (Hirszman) muito triste. E a obra, segundo ele, era uma coisa mais alegre, mais ligeira.” .
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A família ..
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“Tem uma fala da Marília no filme que é: "Que família... (em tom irônico). Todas .as famílias do mundo são "que família...". Mas eu achava bacanérrima minha relação com meu pai. Ele era companheiro, amigo, tudo. Se eu tive uma relação boa com meu pai, paciência. Acontece, nas melhores famílias...”
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. CRÍTICA:

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Hoje, cinema é mais indústria do que qualquer outra coisa. Faltou verba para uma distribuição ao mínimo da altura que o filme merece, faltou verba para a divulgação... Faltou "talento" para jogar esse jogo sujo que, infelizmente, decide quem entra e quem fracassa e sobrou para fazer arte. Qual talento venceu? Um filme apaixonante que a maioria não viu, porque quem manda na arte nesse país é quem nada entende dela, nem pretende entender.

Ruy Castro - Despindo Nelson.

Ruy Castro, no Leblon, em foto de Marcio Scavone . . . . . . . . Se hoje conhecemos Nelson como realmente é, se ninguém pode negar a sua genialidade, devemos isso ao Ruy Castro que possibilitou a nós um estudo confiável e riquíssimo acerca de sua vida e de suas obras. Nada mais compreensível vermos serem dedicados a ele, também o carinho dos fãs de Nelson Rodrigues. . . . . . . . .
Um pouco sobre ele:
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Ruy Castro nasceu em Caratinga, Minas Gerais, em 1948. Desde os cinco anos de idade pedia que sua mãe lesse, em voz a alta, as histórias de adultério que Nelson Rodrigues publicava na imprensa. Escritor e colunista da Folha de S.Paulo, formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, atua na imprensa desde 1967, passou por todos os grandes veículos do Rio e São Paulo e trabalha com livros desde 1987. Além de editor e organizador de obras de Nelson Rodrigues, é autor de sua biografia, que é a principal, a mais importante referência de estudos sobre Nelson. "O anjo pornográfico" tornou possível a muitas pessoas entenderem que Nelson Rodrigues foi fundamental para a literatura brasileira (com caráter universal), o teatro, a cultura. É também autor de biografias de Garrincha e Carmen Miranda. Traduziu Woody Allen, Dorothy Parker e outros. Escreveu mais de vinte livros, traduzidos para diversos idiomas. Transitou pelo humor, ficção, chegando aos livros de não-ficção. Aliando rigor jornalístico ao texto primoroso, consagrou-se como um dos escritores mais respeitados do país. É, hoje, um dos principais autores da editora Companhia das Letras.
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O livro "O anjo pornográfico – A vida de Nelson Rodrigues", levou o prêmio Nestlé de Literatura.

O livro "Estrela solitária - Um brasileiro chamado Garrincha", recebeu o Jabuti e foi considerado o melhor livro do ano.

O livro "Carmen, uma biografia", também levou o Jabuti e foi considerado o melhor livro de não-ficção em 2006.

Lançou o romance histórico: Era no tempo do rei.

Obras publicadas:
  • Chega de Saudade: A história e as histórias da Bossa Nova (1990);
  • O Anjo Pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues (1992);
  • Saudades do Século XX (1994);
  • Estrela Solitária: Um brasileiro chamado Garrincha (1995);
  • Ela é Carioca (1999);
  • Billac Vê Estrelas (2000);
  • O Pai que era Mãe (2001);
  • A Onda que se Ergueu no Mar (2001);
  • Carnaval no Fogo (2003);
  • Flamengo: Vermelho e Negro (2004);
  • Amestrando Orgasmos (2004);
  • Carmen: Uma biografia (2005).
  • Tempestade de Ritmos (2007).
  • Ungáua! - 101 Crônicas: reunião de crônicas jornalísticas (2008).

Participações, adaptações e antologias:

  • O Melhor do Mau-Humor: Uma antologia de citações venenosas;
  • Contos de Estimação;
  • Alice no País das Maravilhas;
  • O Poder de Mau-Humor;
  • Querido Poeta: Correspondência de Vinícius de Moraes.

"Outro dia me perguntaram por que eu gostava tanto de ler. Vejamos. Ler é melhor do que ir ao cinema, viajar ou usar porcarias que tiram o sujeito do sério. Ao ler você produz, dirige e estrela o filme dentro de sua cabeça; viaja sem os inconvenientes da viagem; e penetra em mundos dos quais volta mais humano e mais sábio. Nada expande mais a consciência do que um bom romance ou qualquer livro inteligente. Pensando bem, ler é a segunda melhor coisa do mundo. A primeira é escrever. A que você está pensando é hors-concours." Ruy Castro

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Trecho da introdução de "O Anjo pornográfico":
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Se a narrativa de “O anjo pornográfico” lembra às vezes um romance é porque não há outra maneira de contar a história de Nelson Rodrigues e de sua família. Ela é mais trágica e rocambolesca do que qualquer uma de suas histórias, e tão fascinante quanto. ~ quase inacreditável que o que se vai ler aconteceu de verdade no espaço de uma única vida. (Daí por que quando Nelson morreu em 1980, aos 68 anos, muitos achassem que ele era séculos mais velho.)
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Durante muitos anos, Nelson Rodrigues carregou a fama de “tarado”. Em seus anos finais, a de “reacionário”. Ninguém foi mais perseguido: a direita, a esquerda, a censura, os críticos, os católicos (de todas as tinturas) e, muitas vezes, as platéias — todos, em alguma época, viram nele o anjo do mal, um câncer a ser extirpado da sociedade brasileira. E, olhe, quase conseguiram. .
Mas, ao mesmo tempo em que queriam “caçá-lo a pauladas, como a uma ratazana prenhe”, havia também muitos para quem parecia impossível admirar Nelson Rodrigues o suficiente. também muitos para quem parecia impossível admirar Nelson Rodrigues o suficiente. Mesmo os seus piores inimigos nunca lhe negaram o talento — e não foram poucos os que o chamaram de gênio. Há quem arrisque até explicações espíritas para certos lampejos de Nelson. Para alguns, era um santo; para outros, um canalha; para todos, sempre, uma surpresa ambulante. Mas, como se verá, ninguém o conheceu direito..

OS SETE GATINHOS

Nelson, que acompanhou o roteiro do filme, como também de “A dama do lotação”, pôde afirmar o seguinte: “Jabor só deixou de ser o maior cineasta brasileiro quando Neville D'Almeida encadeou em sua filmografia A dama do lotação e Os sete gatinhos. Estavam feitas as pazes com o cinema brasileiro.”. Vê-se a essência da obra na adaptação de Neville, desde o roteiro até a escolha do elenco e direção, que foi genial.
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O que é muito visível nessa e nas outras peças de Nelson é a existência das personagens, principalmente femininas, com a necessidade de auto-punição, quando ultrapassam o limite da consciência e se tornam imorais ou, no fim, amorais... Ou quando temem demais sucumbir à tentação, num moralismo radical, e seus desejos apodrecem. São as personagens que reagem à repressão sexual indo a um extremo ou a outro.
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A decadência da família é outro tema recorrente dele e muito presente em “Os sete gatinhos”, tanto na obra original como no filme, tendo este realçado esse que é o traço principal da obra. Nelson costumava dizer que a reforma ética salvará a humanidade e que seus personagens, sendo assistidos, como uma catarse, talvez, poupariam o público de cometer tais pecados. Dizia também que a salvação do homem está no amor. Na peça “Anti-Nelson Rodrigues”, peça que surgiu de um de seus contos, a Joyce, por amor e ética também, rasga uma fortuna em cheque e se entrega ao Oswaldinho. Vê-se que essa peça se chama Anti-Nelson Rodrigues não é à toa, já que é diferente de todas as outras, porém, como Nelson mesmo disse, é a peça mais Nelson Rodrigues, não pelo resultado artístico, nem pela análise numérica, mas pela crença dele no amor como a salvação da humanidade.
. Em “Os sete gatinhos”, a Gorda é apenas mais uma personagem reprimida sexualmente que, para reagir a essa repressão, escolhe se expressar, mesmo que escondida, por um dos caminhos entre perversão e excesso de pudor. Ela escolheu a perversão. Noronha, por sua vez, espera que a caçula salve toda a família do caos em que esta se encontra, ou justifica esse caos com um motivo nobre: a pureza da Silene. Ou seja, perverte toda a família para manter Silene pura. Quando descobre que não pode mais se refugiar nessa pureza, ele resolve “legitimar” toda aquela situação para transformar o que era feito às escondidas em fato, ou seja, a casa em um puteiro, usando novamente a Silene como argumento.
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Silene engravida do namorado da irmã Aurora. (Mais um tema recorrente de Nelson: Duas irmãs amando o mesmo homem. Vemos aí, também, a clássica desculpa do homem casado com uma mulher à beira da morte). Com a revelação da gravidez, é obrigada, pelo próprio pai, a se prostituir e espera em seu quarto pelo médico que, após o dilema entre a tentação pedófila e incestuosa (já que se lembra constantemente que tem uma filha da mesma idade) e seus princípios morais, acaba se deixando vencer pela tentação. Não suportando a culpa, se suicida em seguida.
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Aurora, como a maioria das prostitutas, sonha em se casar, mas Bibelot a quer na zona, faturando. São diversos os símbolos dessa peça e todas as passagens são riquíssimas, como o caso em que Silene mata uma gata prenha a pauladas. Ela, que estava grávida, desejava uma gravidez que não era permitida a ela, talvez invejasse o direito da gata que teria seus filhotes; O pai procura pelo homem que chorava por um olho só, responsável pela desgraça de sua família que, no fim, se descobre que é ele próprio.
.. Por tudo isso e mais, o filme “Os sete gatinhos” representa com dignidade o universo rodrigueano que, dentro de seus múltiplos aspectos, tem sua parcela não só atendida, como realçada.
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. Alguns trechos de “Os sete gatinhos":
__________________________________________ Também do Neville, o grande sucesso de bilheteria, adaptado do conto de Nelson:

A Dama do lotação.

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Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.

Parte de uma entrevista com Nelson à revista Manchete (Agosto/1977):

Manchete — Você está lançando o seu livro O Reacionário. Por que o livro e por que esse título?

Nelson Rodrigues — Este livro é uma das coisas mais sérias que já fiz na minha vida. Antes de falar de mim, mal ou bem, o sujeito deve ler o meu livro para saber o que eu acho, para saber do meu anticomunismo, saber do meu horror a Marx... Marx não toma conhecimento da orte. E nós exigimos de Marx a devolução de nossa alma imortal. Tudo isso está no livro. Agora, eu tenho uma virtude única, que é a seguinte: não tenho medo de passar por reacionário.

Querem me chamar de reacionário, chamem; querem me pichar como reacionário, pichem; Querem me pendurar num galho de árvore como ladrão de cavalo, pendurem. Mas eu sou homem que não aceita essa impostura gigantesca dos chamados países socialistas. Por mais que eu tenha horror da política, há muita política no meu livro. Eu acho que a política corrompe qualquer um, mas ela é um fato. Alias, vocês querem saber de uma coisa? Eu comecei a ficar anticomunista aos 11 anos de idade. Eu era um rato de jornal e nessa ocasião comecei a freqüentar o jornal A Nação, do Leônidas de Rezende, um comunista tremendo. Então, um dia assim sem mais nem menos, um rapaz me disse que, se o partido mandasse, ele estrangularia a sua própria mãe. Era só o partido mandar. A ONU, por exemplo, não considera o Brejnev um canalha. Para la, o fato de existirem intelectuais internados em hospícios não representa um ato atentatório aos direitos humanos.

Agora, vou te dizer uma coisa: eu pensei muito quando dei ao meu livro o título de O Reacionário. Porque no duro, no duro, eu não sou reacionário. A mais cruel forma de reacionarismo está nos países socialistas, na Rússia, em Cuba, na China, etc. Realmente, eu sou um libertário. Veja você: dois pobres-diabos cidadãos soviéticos seqüestraram um avião para deixar o paraíso e foram parar na Finlândia. Entregaram-se ao governo finlandês, que os devolveu ao Brejnev. Vão ser naturalmente fuzilados. Pois bem: Quem protestou contra isso? Onde está o manifesto dos intelectuais com 3.999 assinaturas? No duro eu sou um libertário. Eles, marxistas, é que são reacionários. Repito mais uma vez: os marxistas é que são reacionários.

Manchete — Nelson, ainda existe o padre de passeata? Eles ainda estão em plena atuação? Nelson Rodrigues — Ainda existem e estão em plena atuação. Sempre houve o padre de passeata. É o falso padre, o sujeito que trai a Igreja, que trai Cristo, trai Deus. Este é o padre de passeata. (...) Manchete — Nelson, você gostaria de viver agora ou na Idade Média? Nelson — Em primeiro lugar, eu não vejo nada de ruim na Idade Média, como você está insinuando. Foi uma etapa da história da humanidade, simplesmente. A Idade Média tinha seus valores formidáveis. A par disso, já afirmei que tinha uma alma de Belle Époque. Hoje estamos assistindo a uma destruição de valores. Nunca a maldade humana, a perversidade humana, a ferocidade humana foram tão violentas como em nossa época. Eu digo o seguinte: se houvesse uma guerra nuclear e o mundo acabasse, não se perderia grande coisa. Alias, de todas as épocas eu acho que a pior é exatamente a nossa. (...) Manchete — Mas você é muito amargo. Nelson Rodrigues — Como?

Manchete — Muito amargo em face da vida.
Nelson RodriguesMeu coração, meu anjo: a amargura é o elemento do artista. A amargura dá uma dimensão fantástica ao artista..
Nelson detestava qualquer tipo de violência, não importa se viria da direita ou da esquerda, o que ele não suportava era o fato de a esquerda criticar, na direita, métodos violentos usados por ela mesma quando no poder. Se intitulou no livro como "O reacionário" para fazer uma ironia com os que assim o chamavam.
Palavras de Nelson:
"Se eu apoiasse QUALQUER ato de violência, da direita ou da esquerda, seria um canalha". .
"Tão parecidos, Stalin e Hitler, tão gêmeos, tão construídos de ódio. Ninguém mais Stalin do que Hitler, ninguém mais Hitler do que Stalin.".
------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ "Para mim a liberdade é -------------------------------------------------------------------------------------------------------mais importante que o pão".
."Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: - do que a experiência concreta do Socialismo...".
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Nelson Rodrigues percebeu, mais cedo do que muitos, a fundamental parecença entre o nazismo e o stalinismo que, partindo de dogmas diferentes, se aliaram na violência contra o ser humano.
Roberto Campos.
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"Nélson foi um reacionário, apenas na medida em que não aceitou a submissão do indivíduo a qualquer regime totalitário.".
Sábato Magaldi.
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Otto Lara entrevista o escritor Nelson Rodrigues recém-saído do coma em 1977, quando tinha acabado de lançar o livro O Reacionário. (Entrevista exibida pela TV Globo em 1977. Vídeo disponibilizado pela primeira vez no Youtube por http://www.aroundvenus.blogspot.com/):
Parte 1 Parte 2 Parte 3

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Nelson Rodrigues: Cinema e polêmicasMais entrevistas:

-Revista "Fatos e Fotos Gente" de 1978 e 1979 com a coluna do Nélson: http://caieca.multiply.com/photos/album/56/Manchete_Album_8_atualizado_19-04-08#59

http://caieca.multiply.com/photos/album/56/Manchete_Album_8_atualizado_19-04-08#60

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.-Entrevista com Nelson Rodrigues (a última) que saiu na revista "Manchete" em 1985: http://caieca.multiply.com/photos/album/32/Manchete_Album_6#64

http://caieca.multiply.com/photos/album/32/Manchete_Album_6#65

(clique em "zoom in" para ampliar o texto).

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-Vídeo de 1980 - Nelson fala sobre a seleção brasileira no Fantástico em 1980:

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM731169-7823-NELSON+RODRIGUES+EM+ENTREVISTA+AO+FANTASTICO+EM,00.html

A grande dama fala de sua relação com a obra de Nelson Rodrigues e com "Vestido de Noiva":

Das crônicas que a avó lhe contava para dormir à cafetina do filme Vestido de Noiva - Por Dafne Sampaio.
Quando você assistiu uma peça do Nelson Rodrigues pela primeira vez?
Tenho uma abordagem anterior com o Nelson porque quando tinha, sei lá, uns 5 anos meus pais saíam para trabalhar no teatro e me deixavam com a minha avó, que era atriz também, lá no Rio Comprido. E ela lia pra mim na cama aquelas crônicas de A Vida Como Ela É. Não tinha idéia de quem escrevia, mas gostava daquilo. Tenho esse encontro com Nelson ainda muito menina. Depois vi Toda Nudez Será Castigada com a Cleyde Yáconis, o Bonitinha Mas Ordinária com a minha avó, todas as adaptações para o cinema. Fiz também alguns trechos de peças dele para o Fantástico na década de 1970 e depois, em 1998, estive em uma nova montagem de Toda Nudez Será Castigada com direção do Moacyr Góes.
Existiu alguma razão para essa demora ou simplesmente aconteceu assim?
É que foi a primeira vez que me convidaram pra fazer um Nelson Rodrigues e como não produzo tudo o que faço... foi só por isso. Outras atrizes foram fazendo e houve um momento em que montaram muito as peças dele. Acho que acabou surgindo um desinteresse meu por causa disso, por causa de tantas e boas montagens. Já estava feito. Aí fui esquecendo da minha vontade de fazer.
Qual a contribuição do Nelson Rodrigues para a dramaturgia nacional?
Ele é um revolucionário e uma pessoa louca, mas no sentido criativo. Engraçado. Com uma família dilacerada e uma coragem de expor todas as coisas que aconteceram com ele. Teve uma vida muito rica, uma história muito sofrida e tudo colocado ali no teatro. É um clássico. É o nosso maior autor e um desbravador que abriu o caminho para muitos autores brasileiros.
Você lembra a primeira vez que viu uma montagem de Vestido de Noiva?
Foi em um teatro que hoje se chama Nelson Rodrigues, no Rio de Janeiro em 1976. Tinha Camila Amado, Carlos Vereza, a Norma Bengell fazendo a Madame Clessy e direção do Ziembinski. Era uma cópia exata e belíssima da montagem original de 1943.
E como chegou para você o convite para participar dessa adaptação para o cinema?
Acho que o Joffre Rodrigues [diretor do filme e filho de Nelson Rodrigues] pretendia fazer com outras atrizes, uma delas era a Lucélia Santos, mas não sei porque não aconteceu com nenhuma delas e ele acabou chegando a mim. Quando ele chegou com o texto e o convite não entendi muito bem porque sempre imaginei a Madame Clessy como uma mulher de 40 anos. Achei estranho porque tenho uma idade maior que essa, mas ele disse que isso não tinha importância e partimos para o filme.
Como foi a experiência de viver a Madame Clessy?
Viver qualquer texto do Nelson é uma experiência rica porque ele tem um jeito todo particular de contar a vida. Queria muito viver isso. E a Clessy é linda, é uma personagem muito bonita que morre de amor por um menino de 17 anos. Sempre vi a Madame Clessy muito meiga e delicada, diferente de outras interpretações que deram a ela. Já vi a Clessy muito incisiva, mais cafetina mesmo, mas sempre imaginei ela mais doce, mais menina. Aliás, eu tenho mesmo essa tendência de puxar o lado menina das personagens. Gosto de fazer isso.
E porque você faz isso?
Acho que a alma da personagem está mais na criança. É quando ela é mais verdadeira. Eu sempre regrido um pouco os personagens para entender as almas deles. Acho que é isso. E a Madame Clessy é uma menina, uma menina. Isso me fez lembrar de seu personagem duplo no filme Polaróides Urbanas...É que as gêmeas são puro instinto. A criança é puro instinto. A Magali e a Magda talvez tenham essa coisa mais infantil, mais espontânea. Possuem menos auto-censura.
Como foi o trabalho em Polaróides?
O Miguel Falabella é um homem de teatro. Primeiro como ator e depois como escritor, produtor e diretor. Depois é que foi fazer televisão e agora está começando em cinema. Jamais achei que o filme ficasse “televisivo”. Imaginei que pudesse ser teatral, e ele é, porque uma parte acontece dentro do teatro. Agora, o Miguel é muito talentoso e delicado no trato com os atores. Essa é uma diferença muito visível entre os diretores que são também atores e os diretores-diretores. Os diretores-atores possuem um extremo cuidado com os atores e um desejo enorme de deixá-los à vontade e felizes. Afinal são os atores que carregam a obra mesmo que seja imprescindível ter um grande texto e um grande diretor. Agora se o ator não complementa tudo isso, o trabalho se perde. Voltando ao Miguel... ele sabia muito bem o que queria, nunca ficou perdido e conseguiu com o diretor de fotografia uma movimentação de câmera muito cinematográfica. Acho o filme muito bem acabado, muito redondo. E muito bonito, o que acabou me surpreendendo porque a minha parte é muito chanchada da Atlântida – a Magali e a Magda são a Dercy Gonçalves [risos] - e não sabia que aconteceriam tantos momentos pungentes e dramáticos nas outras partes.
Você possui muitos sucessos como diretora de teatro, entre eles O Mistério de Irma Vap. Nunca pensou em dirigir para cinema?
Não, não conheço a mecânica da coisa e é um trabalho insano. Teatro também é, mas o diretor de cinema fica envolvido com o texto muito tempo antes e demora para começar a filme. Depois é uma tourada para filmar e quando acaba ainda tem a edição, a captação de recursos para finalização, o lançamento, festivais. É muito trabalhoso fazer cinema e tem toda uma técnica que desconheço. Já é o teatro eu conheço.
O Vestido de Noiva estréia na TV, o Polaróides ainda está nos cinemas e a novela Duas Caras está acabando neste mês. O que vem pela frente?
Estou na direção da peça Doce Deleite, texto de Alcione Araújo com Camila Morgado e Reynaldo Gianecchini no elenco e que estréia este mês no Rio de Janeiro. Em junho começo a ensaiar com Ivaldo Bertazzo o espetáculo Oscaritos e Grandes Otelos que é meio a história do musical brasileiro. Vou dirigir uma nova montagem de O Mistério de Irma Vap com Cássio Scapin e Marcelo Médici e que deve estrear em setembro em São Paulo. E para o começo do ano que vem vou dirigir a Fafy Siqueira em uma peça sobre a Dercy Gonçalves. Texto da Maria Adelaide Amaral.
Entrevista retirada do site:
(Revista Monet).

NELSON POR NELSON

“Nasci a 23 de agosto de 1912, no Recife, Pernambuco. Vejam vocês: eu nascia na rua Dr. João Ramos (Capunga) e, ao mesmo tempo, Mata-Hari ateava paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris. Era a espiã de um seio só e não sabia que ia ser fuzilada. Que fazia ela, e que fazia o marechal Joffre, então apenas general, enquanto eu nascia? A belle époque já trazia no ventre a primeira batalha do Marne. Mas por que “espiã de um seio só?” Não ponho minha mão no fogo por uma mutilação que talvez seja uma doce, uma compassiva fantasia. Seja como for, o seio solitário é, a um só tempo, absurdamente triste e altamente promocional.
Mas a belle époque não é a defunta que, de momento, me interessa. Tenho mortos e vivos mais urgentes. Por outro lado, minhas lembranças não terão nenhuma ordem cronológica. Hoje posso falar do kaiser, amanhã do Otto Lara Resende, depois de amanhã do czar, domingo do Roberto Campos. E por que não do Schmidt? Como não falar de Augusto Frederico Schmidt? Seu nome ainda tem a atualidade, a tensão, a magia da presença física. Todavia, deixemos o Schmidt para depois. O que eu quero dizer é que estas são memórias do passado, do presente, do futuro e de várias alucinações”. (p.11)
“Toda a minha primeira infância tem gosto de caju e de pitanga. Caju de praia e pitanga brava. Hoje, tenho 54 anos bem sofridos e bem suados (confesso minha idade com um cordial descaro, porque, ao contrário do Tristão de Athayde, não odeio a velhice). Mas como ia dizendo: - ainda hoje, quando provo uma pitanga ou um caju contemporâneo, sou raptado por um desses movimentos proustianos, por um desses processos regressivos e fatais”. (p.15) “1913. O que a memória consciente preservou de Olinda foi um mínimo de vida e de gente. Eu me lembro de pouquíssimas pessoas. Por exemplo: - vejo uma imagem feminina. Mas é mais um chapéu do que uma mulher. Em 1913, mesmo meu pai e minha mãe pareciam não ter nada a ver com a vida real. Vagavam, diáfanos, por entre as mesas e cadeiras. Depois, eu os vejo parados, com uma pose meio espectral de retrato antigo. Mas nem meu pai, nem minha mãe falavam. Eu não os ouvia. O que me espanta é que essa primeira infância não tem palavras. Não me lembro de uma única voz. Não guardei um bom-dia, um gemido, um grito. Não há um canto de galo no meu primeiro e segundo ano de vida. O próprio mar era silêncio”. p.15-6)
“Já falei da louca, filha da lavadeira. Foi a primeira mulher nua que vi na minha infância. E, ainda agora, ao bater estas notas, tenho a cena diante de mim. Eu me vejo, pequenino e cabeçudo como um anão de Velásquez. Empurro a porta e olho. O espantoso é que sinto uma relação direta e atual entre mim e o fato, como se a memória não fosse a intermediária. A demente tem a tensão e o cheiro da presença viva. Mas como ia dizendo: - no fundo, encostada à parede, está a nudez acuada”. (p.39)
“No primeiro momento, a glória é casta. Desde garotinho, a minha vida fora a desesperada busca da mulher primeira, única e última. No período da fome, o amor passara a um plano secundário ou nulo. Mas a glória é ainda mais obsessiva, mais devoradora do que a fome. Eis o que eu queria dizer: _ com o artigo de Manuel Bandeira, só eu existia para mim mesmo. Tudo o mais era paisagem.” (...)
“Sim, ainda me lembro do primeiro dia do artigo de Manuel Bandeira. Depois do trabalho, fui para casa. Tranquei-me no quarto como se fosse praticar um ato solitário e obsceno. Comecei a reler o poeta. Primeiro, repassei todo o artigo, da primeira à última linha. Depois, reli certos trechos. O final dizia assim: - “Vestido de noiva, em outro país, consagraria um autor. No Brasil, consagrará o público”. Antes de mais nada, o poeta influiu na minha auto-estima”. (p.162)
“Uma meia dúzia aceitou Álbum de família. A maioria gritou. Uns acharam “incesto demais”, como se pudesse haver “incesto de menos”. De mais a mais, era uma tragédia “sem linguagem nobre”. Em suma: - a quase unanimidade achou a peça de uma obsessiva, monótona obscenidade. Augusto Frederico Schmidt falou na minha “insistência na torpeza”. O dr. Alceu deu toda razão à polícia, que interditaria a peça; meu texto parecia-lhe da “pior subliteratura. Assim comecei a destruir os meus admiradores. Foi uma carnificina literária. Mas não me degradei, eis a verdade, não me degradei”. (p.215)
“O número de ex-admiradores aumentava. E, pouco a pouco, ia fundando a minha solidão. Fora proibida a representação de Álbum de família. Em seguida, houve a interdição de Anjo negro. De peça para peça, me tornava, e cada vez mais, um caso de polícia. Escândalo nos jornais. E, um dia, encontro-me com Carlos Lacerda. Pediu o meu novo texto: - “Você me dá, que eu escrevo contra a censura”. Ótimo. No dia seguinte, fui levar-lhe uma cópia.” (...)
“Desde aquela época, cada um, na vida literária, tinha que ser um engajado. Ninguém ia à rua sem a sua pose ideológica. Lembro-me de Isaac Paschoal me perguntando, depois de um discurso de Prestes: - “E você? Qual é a sua contribuição?”. Baixei a vista, rubro de vergonha. E, como ainda não contribuíra, senti-me um fracassado nato e hereditário. Daí porque não posso ver, hoje em dia, o Guimarães Rosa, sem uma sensação de deslumbramento. Durante anos, pratiquei a solidão com certo pânico e certa vergonha. E eis que vem o autor de Sagarana e ergue a sua torre de marfim, assim como um cigano põe a sua barraca. Nada existe: - só a sua obra. Estão brigando no Vietnã? Pois o nosso Rosa escreve. Há a guerra nuclear, o fim do mundo? Guimarães Rosa funda outro idioma. A torre de marfim fez dele o maior artista brasileiro do século”. (p.218)
(Excertos de A menina sem estrela - Memórias, de Nelson Rodrigues; São Paulo: Companhia das Letras, 1999, Coleção das Obras de Nelson Rodrigues, sob a coordenação de Ruy Castro).
Site pesquisado: "Jornal da poesia".
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O EX-COVARDE
Entro na redação e o Marcello Soares de Moura me chama. Começa: — “Escuta aqui, Nelson. Explica esse mistério”. Co­mo havia um mistério, sentei-me. Ele começa: — “Você, que não escrevia sobre política, por que é que agora só escreve so­bre política?”. Puxo um cigarro, sem pressa de responder. In­siste: — “Nas suas peças não há uma palavra sobre política. Nos seus romances, nos seus contos, nas suas crônicas, não há uma palavra sobre política. E, de repente, você começa suas confis­sões. É um violino de uma corda só. Seu assunto é só política. Explica: — Por quê?”.
Antes de falar, procuro cinzeiro. Não tem. Marcello foi apa­nhar um duas mesas adiante. Agradeço. Calco a brasa do cigar­ro no fundo do cinzeiro. Digo: — “É uma longa história”. O interessante é que outro amigo, o Francisco Pedro do Coutto, e um outro, Permínio Ásfora, me fizeram a mesma pergunta. E, agora, o Marcello me fustigava: — “Por quê?”. Quero saber: — “Você tem tempo ou está com pressa?”. Fiz tanto suspense que a curiosidade do Marcello já estava insuportável.
Começo assim a “longa história”: — “Eu sou um ex-covarde”. O Marcello ouvia só e eu não parei mais de falar. Disse-lhe que, hoje, é muito difícil não ser canalha. Por toda a parte, só vemos pulhas. E nem se diga que são pobres seres anônimos, obscuros, perdidos na massa. Não. Reitores, professores, soció­logos, intelectuais de todos os tipos, jovens e velhos, mocinhas e senhoras. E também os jornais e as revistas, o rádio e a tv. Quase tudo e quase todos exalam abjeção.
Marcello interrompe: — “Somos todos abjetos?”. Acendo outro cigarro: — “Nem todos, claro”. Expliquei-lhe o óbvio, isto é, que sempre há uma meia dúzia que se salva e só Deus sabe como. “Todas as pressões trabalham para o nosso avilta­mento pessoal e coletivo.” E por que essa massa de pulhas in­vade a vida brasileira? Claro que não é de graça, nem por acaso.
O que existe, por trás de tamanha degradação, é o medo. Por medo, os reitores, os professores, os intelectuais são mon­tados, fisicamente montados, pelos jovens. Diria Marcelo que estou fazendo uma caricatura até grosseira. Nem tanto, nem tan­to. Mas o medo começa nos lares, e dos lares passa para a igreja, e da igreja passa para as universidades, e destas para as reda­ções, e daí para o romance, para o teatro, para o cinema. Fo­mos nós que fabricamos a “Razão da Idade”. Somos autores de impostura e, por medo adquirido, aceitamos a impostura co­mo a verdade total. Sim, os pais têm medo dos filhos, os mestres dos alunos. E o medo é tão criminoso que, outro dia, seis ou sete universitá­rios curraram uma colega. A menina saiu de lá de maca, quase de rabecão.
No hospital, sofreu um tratamento que foi quase ou­tro estupro. Sobreviveu por milagre. E ninguém disse nada. Nem reitores, nem professores, nem jornalistas, nem sacerdotes, nin­guém exalou um modestíssimo pio. Caiu sobre o jovem estu­pro todo o silêncio da nossa pusilanimidade. Mas preciso pluralizar. Não há um medo só. São vários me­dos, alguns pueris, idiotas. O medo de ser reacionário ou de pare­cer reacionário. Por medo das esquerdas, grã-finas e milionários fazem poses socialistas. Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o chamem de reacionário. É o medo que faz o dr. Alceu renegar os 2 mil anos da Igreja e pôr nas nuvens a “Gran­de Revolução” russa. Cuba é uma Paquetá. Pois essa Paquetá dá ordens a milhares de jovens brasileiros. E, de repente, somos ocupados por vietcongs, cubanos, chineses. Ninguém acusa os jovens e ninguém os julga, por medo. Ninguém quer fazer a “Re­volução Brasileira”. Não se trata de Brasil. Numa das passeatas, propunha-se que se fizesse do Brasil o Vietnã. Por que não fazer do Brasil o próprio Brasil? Ah, o Brasil não é uma pátria, não é uma nação, não é um povo, mas uma paisagem. Há também os que o negam até como valor plástico.
Eu falava e o Marcelo não dizia nada. Súbito, ele interrom­pe: — “E você? Por que, de repente, você mergulhou na políti­ca?”. Eu já fumara, nesse meio tempo, quatro cigarros. Apanhei mais um: — “Eu fui, por muito tempo, um pusilânime como os reitores, os professores, os intelectuais, os grã-finos etc. etc. Na guerra, ouvi um comunista dizer, antes da invasão da Rús­sia: — ‘Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra’. E eu, por covardia, não disse nada. Sempre achei que a história da Grande Revolução, que o dr. Alceu chama de ‘o maior acon­tecimento do século xx, sempre achei que essa história era um gigantesco mural de sangue e excremento. Em vida de Stalin, jamais ousei um suspiro contra ele. Por medo, aceitei o pacto germano-soviético. Eu sabia que a Rússia era a antipessoa, o anti-homem. Achava que o Capitalismo, com todos os seus crimes, ainda é melhor do que o Socialismo e sublinho: — do que a ex­periência concreta do Socialismo”.
Tive medo, ou vários medos, e já não os tenho. Sofri mui­to na carne e na alma. Primeiro, foi em 1929, no dia seguinte ao Natal. Às duas horas da tarde, ou menos um pouco, vi meu irmão Roberto ser assassinado. Era um pintor de gênio, uma es­pécie de Rimbaud plástico, e de uma qualidade humana sem igual. Morreu errado ou, por outra, morreu porque era “filho de Mário Rodrigues”. E, no velório, sempre que alguém vinha abraçar meu pai, meu pai soluçava: — “Essa bala era para mim”. Um mês depois, meu pai morria de pura paixão. Mais alguns anos e meu irmão Joffre morre. Éramos unidos como dois gê­meos. Durante quinze dias, no Sanatório de Correias, ouvi a sua dispnéia. E minha irmã Dorinha. Sua agonia foi leve como a eu­foria de um anjo. E, depois, foi meu irmão Mario Filho. Eu dizia sempre: — “Ninguém no Brasil escreve como meu irmão Ma­rio”. Teve um enfarte fulminante. Bem sei que, hoje, o morto começa a ser esquecido no velório. Por desgraça minha, não sou assim. E, por fim, houve o desabamento de Laranjeiras. Mor­reu meu irmão Paulinho e, com ele, sua esposa Maria Natália, seus dois filhos, Ana Maria e Paulo Roberto, a sua sogra, d. Ma­rina. Todos morreram, todos, até o último vestígio. Falei do meu pai, dos meus irmãos e vou falar também de mim. Aos 51 anos, tive uma filhinha que, por vontade materna, chama-se Daniela. Nasceu linda. Dois meses depois, a avó teve uma intuição. Chamou o dr. Sílvio Abreu Fialho. Este veio, fez todos os exames. Depois, desceu comigo. Conversamos na cal­çada do meu edifício. Ele foi muito delicado, teve muito tato. Mas disse tudo. Minha filha era cega.
Eis o que eu queria explicar a Marcelo: — depois de tudo que contei, o meu medo deixou de ter sentido. Posso subir numa mesa e anunciar de fronte alta: — “Sou um ex-covarde”. É maravilhoso dizer tudo. Para mim, é de um ridículo abjeto ter medo das Esquerdas, ou do Poder Jovem, ou do Poder Ve­lho ou de Mao Tsé-tung, ou de Guevara. Não trapaceio comi­go, nem com os outros. Para ter coragem, precisei sofrer muito. Mas a tenho. E se há rapazes que, nas passeatas, carregam carta­zes com a palavra “Muerte”, já traindo a própria língua; e se outros seguem as instruções de Cuba; e se outros mais querem odiar, matar ou morrer em espanhol — posso chamá-los, sem nenhum medo, de “jovens canalhas”.
Nelson Rodrigues. [14/1/1968]
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OS IDIOTAS DA OBJETIVIDADE . Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias. O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez mil réis. Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte via-se impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais. Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação. Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda. Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do copy desk. Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação. Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei e talvez. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos — o copy desk. Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam. Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: — a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord Byron, disse para mim, risonhamente: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Também Roberto Campos, mais tarde, em discurso, diria: — “Eu sou um idiota da objetividade”. Na verdade, tanto Roberto como Moacir são dois líricos. Eis o que eu queria dizer: — o idiota da objetividade inunda as mesas de redação e seu autor foi, mais uma vez, Pompeu de Sousa. Aliás, devo dizer que o copy desk e o idiota da objetividade são gêmeos e um explica o outro. E toda a imprensa passou a usar a palavra “objetividade” como um simples brinquedo auditivo. A crônica esportiva via times e jogadores “objetivos”. Equipes e jogadores eram condenados por falta de objetividade. Um exemplo da nova linguagem foi o atentado de Toneleros. Toda a nação tremeu. Era óbvio que o crime trazia, em seu ventre, uma tragédia nacional. Podia ser até a guerra civil. Em menos de 24 horas o Brasil se preparou para matar ou para morrer. E como noticiou o Diário Carioca o acontecimento? Era uma catástrofe. O jornal deu-lhe esse tom de catástrofe? Não e nunca. O Diário Carioca nada concedeu à emoção nem ao espanto. Podia ter posto na manchete, e ao menos na manchete, um ponto de exclamação. Foi de uma casta, exemplar objetividade. Tom estrita e secamente informativo. Tratou o drama histórico como se fosse o atropelamento do Zezinho, ali da esquina. Era, repito, a implacável objetividade. E, depois, Getúlio deu um tiro no peito. Ali estava o Brasil, novamente, cara a cara com a guerra civil. E que fez o Diário Carioca? A aragem da tragédia soprou nas suas páginas? Jamais. No princípio do século, mataram o rei e o príncipe herdeiro de Portugal. (Segundo me diz o luso Álvaro Nascimento, o rei tinha o olho perdidamente azul.) Aqui, o nosso Correio da Manhã abria cinco manchetes. Os tipos enormes eram um soco visual. E rezava a quinta manchete: “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. Vejam vocês: — “HORRÍVEL EMOÇÃO!”. O Diário Carioca não pingou uma lágrima sobre o corpo de Getúlio. Era a monstruosa e alienada objetividade. As duas coisas pareciam não ter nenhuma conexão: — o fato e a sua cobertura. Estava um povo inteiro a se desgrenhar, a chorar lágrimas de pedra. E a reportagem, sem entranhas, ignorava a pavorosa emoção popular. Outro exemplo seria ainda o assassinato de Kennedy. Na velha imprensa as manchetes choravam com o leitor. A partir do copy desk, sumiu a emoção dos títulos e subtítulos. E que pobre cadáver foi Kennedy na primeira página, por exemplo, do Jornal do Brasil. A manchete humilhava a catástrofe. O mesmo e impessoal tom informativo. Estava lá o cadáver ainda quente. Uma bala arrancara o seu queixo forte, plástico, vital. Nenhum espanto da manchete. Havia um abismo entre o Jornal do Brasil e a tragédia, entre o Jornal do Brasil e a cara mutilada. Pode-se falar na desumanização da manchete. O Jornal do Brasil, sob o reinado do copy desk, lembra-me aquela página célebre de ficção. Era uma lavadeira que se viu, de repente, no meio de uma baderna horrorosa. Tiro e bordoada em quantidade. A lavadeira veio espiar a briga. Lá adiante, numa colina, viu um baixinho olhando por um binóculo. Ali estava Napoleão e ali estava Waterloo. Mas a santa mulher ignorou um e outro; e veio para dentro ensaboar a sua roupa suja. Eis o que eu queria dizer: — a primeira página do Jornal do Brasil tem a mesma alienação da lavadeira diante dos napoleões e das batalhas. E o pior é que, pouco a pouco, o copy desk vem fazendo do leitor um outro idiota da objetividade. A aridez de um se transmite ao outro. Eu me pergunto se, um dia, não seremos nós 80 milhões de copy desks? Oitenta milhões de impotentes do sentimento. Ontem, falava eu do pânico de um médico famoso. Segundo o clínico, a juventude está desinteressada do amor ou por outra: — esquece antes de amar, sente tédio antes do desejo. Juventude copy desk, talvez. Dirá alguém que o jovem é capaz de um sentimento forte. Tem vida ideológica, ódio político. Não sei se contei que vi, um dia, um rapaz dizer que dava um tiro no Roberto Campos. Mas o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem. [22/2/1968]

Entrevista muito interessante sobre Nelson Rodrigues, com seu filho e cineasta Joffre Rodrigues.

AcheiUSA - Como você apresentaria Nelson Rodrigues para um americano que não conhece sua obra?
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Joffre Rodrigues – Ele é muito maior que a maioria dos grandes dramaturgos americanos. Certa vez me perguntaram se papai seria o Tennessee Williams brasileiro. Respondi: “O Tennessee Williams é que é o Nelson Rodrigues americano.”
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AcheiUSA - Como era o pai Nelson Rodrigues?
Joffre – Maravilhoso! Esta palavra é tão usual, mas é a pura verdade. Olha, minha nega, papai nunca faltou aos filhos, nunca deixou de nos amar ou de dar suporte emocional. Ele foi muito carinhoso. Mesmo quando meu irmão, Nelsinho, entrou na militância política ele foi ao presidente pedir por ele e quando meu irmão finalmente foi preso, ele não faltou a nenhuma visita, a não ser quando estava doente.
AcheiUSA – Como foi para a família todo este envolvimento do Nelsinho na política?
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Joffre – Foi uma barra pesadíssima, porque meu irmão entrou na clandestinidade e papai teoricamente era de direita... Papai não era de direita, ele era anticomunista. Ele serviu de testemunha de defesa para a maioria dos grandes intelectuais, que na época eram estudantes de esquerda que iam a julgamento. Ele mentiu da forma mais cínica!
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AcheiUSA – Como assim?
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Joffre – O juiz perguntou no julgamento de Wladimir Palmeira: “Ele estava sublevando as massas na Presidente Vargas?” Papai disse: “Não é possível, ele estava do meu lado em Copacabana.” Claro que não era verdade! Ele também liberou Zuenir Ventura, tirou da cadeia o Hélio Pelegrino e muita gente de esquerda. Ele ficava como “fiador” da pessoa em liberdade.
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AcheiUSA – Ele nunca teve receio em se comprometer desta forma?
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Joffre – Não. Ele acreditava nestas pessoas. Por outro lado papai foi censurado a vida inteira, desde a década de 40. Teve peças dele que ficaram censuradas por 20 anos, Álbum de Família foi uma delas. Daí ele brigava, mexia os “pauzinhos” e como jornalista importante, ele sempre conseguia liberar. Eles diziam que era chocante para a sociedade brasileira etc etc... Papai estava tão adiantado em relação à sociedade, que desnudava os podres dela.
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AcheiUSA - O que os vizinhos comentavam de ser filho de Nelson Rodrigues?
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Joffre – Era a coisa mais difícil de arranjar namorada! As mães trancavam as filhas quando me viam na esquina, porque eu era filho do “tarado nacional” portanto devia ser tarado também.
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AcheiUSA – Você tem lembrança de quando Nelson estava escrevendo as peças? Joffre – Em casa sempre tinha um ritual. Ele chegava do trabalho às 10 horas da noite, acabava de jantar e depois passava uma hora ouvindo ópera na vitrola. Aí ele ia para seu escritório e começava a bater as peças de teatro. A cada cena ele fazia os gestos dos atores e das atrizes e voltava a bater com os dois dedinhos na máquina. Escrevia rápido, porém só com dois dedos. Era muito bacana e gozado vê-lo fazer aquilo tudo. Ele poderia falar sobre qualquer cena antes ou depois, mas na hora que estava escrevendo era uma concentração total e absoluta.
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AcheiUSA – Numa entrevista para o Otto Lara Resende, Nelson diz que toda mulher gosta de apanhar...
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Joffre – Todas não! Segundo ele só as normais, porque as neuróticas reagem.
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AcheiUSA – O que sua mãe falava sobre isso?
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Joffre – Minha mãe não falava nada. Depois, teve um outro programa, que Murilo Neves indagou ao Nelson: “Vejo na tua mão esquerda uma aliança. O que você tem a dizer sobre isso?” Ele, sem pensar, diz: “Ora, meu caro, eu disse que mulher gosta de apanhar, nunca disse que homem gosta de bater.”
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AcheiUSA – Qual história que mais chamou sua atenção no convívio com seu pai?
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Joffre – Nós morávamos no Andaraí numa rua, meio fechada, onde havia umas 40 casas de cada lado. Teve um caso de uma menina, violinista, que se apaixonou pelo professor de música. Bom, este casal fugiu, o homem era casado e a menina menor de idade. Daí foi aquela perseguição toda da polícia. Papai estava na redação do jornal Última Hora e o casal apareceu lá, conversaram e ele escreveu sobre esta história, dizendo que era um dos amores mais lindos que vira na vida. Aí a mãe da menina fez um abaixo-assinado para todo mundo na rua assinar. Nele, dizia que o cara desviara sua filha e que a família queria recebê-la de volta, essa coisa toda. Todos os vizinhos assinaram, inclusive minha mãe, mas meu pai foi o único que não, alegando que não iria assinar a sentença de morte desse casal. Dias depois eles se mataram, tomando veneno.
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AcheiUSA – Onde Nelson buscava tanta inspiração para escrever?
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Joffre – Meu bem, meu pai, aos 13 anos de idade, foi repórter de polícia, de freqüentar necrotério, cenas de crime etc... Ele aprendeu o que era a vida.
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AcheiUSA - Recentemente Luma de Oliveira desistiu de fazer a segunda adaptação da peça A Dama do Lotação para o cinema, alegando estar com vergonha dos filhos por causa das cenas de sexo. Como você recebeu esta notícia?
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Joffre – Acho que a Luma tem razão. Ela não quer que a imprensa ache que ela é uma tarada, que o marido teria tido razão de separar dela, enfim, coisas assim, bem pessoais. Acho que é a imprensa que não permite, porque pode dizer que Luma vai fazer sexo explícito no filme, mas é claro que não vai! Luma não é atriz e sim modelo. A primeira adaptação foi feita em 1978 e hoje em dia pode passar às oito horas da noite na televisão numa boa, mas na época era escandalosíssimo.
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AcheiUSA – O que você acha dessa diferença na televisão brasileira de ser possível passar cenas de sexo às oito horas da noite e na TV americana colocarem uma tarja nos órgãos genitais, em qualquer horário?
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Joffre – Amorzinho, eles são muito cínicos. Desculpa dizer isso, mas é o que eu acho. Eles são hipócritas, não é nem cinismo, é hipocrisia mesmo. Pecado por pecado, eles dão um banho na gente.
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AcheiUSA – Em que sentido?
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Joffre – Pecado carnal. Aqui têm todas as perversões do mundo e a barra é muito pesada. Têm casas de perversão, em Nova York está cheio de casas de masoquismo, e por aí vai. Nunca ouvi falar que no Brasil tivesse uma. A sociedade americana permite e finge que não permite. E, na televisão, é tudo proibido, nem palavrão pode falar. Aparece o seio da irmã do Michael Jackson e é um escândalo nacional.
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AcheiUSA – Você não acha que o americano quando vê a exposição na tevê brasileira ou mesmo nas praias cariocas não pensaria a mesma coisa da gente?
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Joffre – Eles podem até pensar, mas isso é ignorância. Nós somos autênticos e não hipócritas. Inclusive, uma das coisas que papai mostrou à nossa sociedade é que pecados existem e precisamos melhorar a condição de ser humano para não entrar nessa. Quando Nelson Rodrigues bota perversão em sua obra, faz com intuito de salvar o espectador de cometer a perversão. Amor, vamos tentar não achar que não há sensualidade em você, em mim, no teu chefe ou na minha secretária. Todo mundo é um ser sexual, sem exceção. Vira e mexe e todos pensam em sexo, isso é a coisa mais natural do mundo. É um dos teores da necessidade da procriação.
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AcheiUSA – Você acha que pelo fato de Nelson Rodrigues ter ido tão a fundo nestes problemas da sociedade, suas peças nunca foram encenadas na Broadway, por exemplo?
. Joffre – Não, absolutamente. Em setembro, uns nova-iorquinos rebeldes, que não se conformam que Nelson Rodrigues não seja conhecido nos EUA, farão um seminário sobre sua obra, com patrocínio da New York University. Isso ninguém sabe. É um furo de reportagem teu, sem querer. Alex Ladd e Terry O’Reilly poderão falar mais detalhes sobre este projeto.
. AcheiUSA – Quem está fazendo a tradução para o inglês das peças de Nelson?
. Joffre – Já fiz 12 traduções das peças de papai, com Toby Coe, e tem 929 páginas, distribuídas em dois livros. Demorou 10 anos para ficar pronta, trabalhamos de 1992 a 2002. Levou muito tempo, porque eu moro no Brasil e Toby nos EUA. As pessoas podem encontrar estes livros na Amazon.com.
. AcheiUSA – Como foi a repercussão da montagem, em 1997, do Vestido de Noiva em Los Angeles?
. Joffre – Maravilhosa! Foi no Theatre Forty, em Beverly Hills. O diretor Paul Warner e os atores americanos ficaram empolgadíssimos, e sabiam que estavam trabalhando em algo importante. Estive lá no lançamento e a repercussão foi tamanha que venderam toda a temporada em poucos dias. Isso me fez lembrar do papai, dizendo: “Se eu escrevesse em inglês, hoje estava rico.”
. AcheiUSA – E o clima do Rio de Janeiro, retratado nas peças do Nelson, como fica em montagens no exterior?
. Joffre – Meu amor, tudo que é local atrai. Outra coisa, papai trabalhava com cenários localizados e os sentimentos estampados em sua obra sempre serão universais. .
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AcheiUSA – O Vestido de Noiva, que você dirigiu, já tem alguma previsão de Quando será lançado no Brasil e quando retornará aos EUA?
Joffre – Vamos participar do Brazilian Film Festival of New York também. Será exibido nos Dias 10 e 15 de julho, no Tribeca Cinemas. Já no Brasil, será lançado no final de agosto ou início De setembro.
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. P.S.: O filme VESTIDO DE NOIVA já foi lançado no Brasil, nos cinemas e em DVD. Um filme belíssimo, por sinal.
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