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Joffre Rodrigues – Ele é muito maior que a maioria dos grandes dramaturgos americanos. Certa vez me perguntaram se papai seria o Tennessee Williams brasileiro. Respondi: “O Tennessee Williams é que é o Nelson Rodrigues americano.”
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AcheiUSA - Como era o pai Nelson Rodrigues?
Joffre – Maravilhoso! Esta palavra é tão usual, mas é a pura verdade. Olha, minha nega, papai nunca faltou aos filhos, nunca deixou de nos amar ou de dar suporte emocional. Ele foi muito carinhoso. Mesmo quando meu irmão, Nelsinho, entrou na militância política ele foi ao presidente pedir por ele e quando meu irmão finalmente foi preso, ele não faltou a nenhuma visita, a não ser quando estava doente.
AcheiUSA – Como foi para a família todo este envolvimento do Nelsinho na política?
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Joffre – Foi uma barra pesadíssima, porque meu irmão entrou na clandestinidade e papai teoricamente era de direita... Papai não era de direita, ele era anticomunista. Ele serviu de testemunha de defesa para a maioria dos grandes intelectuais, que na época eram estudantes de esquerda que iam a julgamento. Ele mentiu da forma mais cínica!
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AcheiUSA – Como assim?
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Joffre – O juiz perguntou no julgamento de Wladimir Palmeira: “Ele estava sublevando as massas na Presidente Vargas?” Papai disse: “Não é possível, ele estava do meu lado em Copacabana.” Claro que não era verdade! Ele também liberou Zuenir Ventura, tirou da cadeia o Hélio Pelegrino e muita gente de esquerda. Ele ficava como “fiador” da pessoa em liberdade.
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AcheiUSA – Ele nunca teve receio em se comprometer desta forma?
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Joffre – Não. Ele acreditava nestas pessoas. Por outro lado papai foi censurado a vida inteira, desde a década de 40. Teve peças dele que ficaram censuradas por 20 anos, Álbum de Família foi uma delas. Daí ele brigava, mexia os “pauzinhos” e como jornalista importante, ele sempre conseguia liberar. Eles diziam que era chocante para a sociedade brasileira etc etc... Papai estava tão adiantado em relação à sociedade, que desnudava os podres dela.
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AcheiUSA - O que os vizinhos comentavam de ser filho de Nelson Rodrigues?
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Joffre – Era a coisa mais difícil de arranjar namorada! As mães trancavam as filhas quando me viam na esquina, porque eu era filho do “tarado nacional” portanto devia ser tarado também.
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AcheiUSA – Você tem lembrança de quando Nelson estava escrevendo as peças?
Joffre – Em casa sempre tinha um ritual. Ele chegava do trabalho às 10 horas da noite, acabava de jantar e depois passava uma hora ouvindo ópera na vitrola. Aí ele ia para seu escritório e começava a bater as peças de teatro. A cada cena ele fazia os gestos dos atores e das atrizes e voltava a bater com os dois dedinhos na máquina. Escrevia rápido, porém só com dois dedos. Era muito bacana e gozado vê-lo fazer aquilo tudo. Ele poderia falar sobre qualquer cena antes ou depois, mas na hora que estava escrevendo era uma concentração total e absoluta.
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AcheiUSA – Numa entrevista para o Otto Lara Resende, Nelson diz que toda mulher gosta de apanhar...
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Joffre – Todas não! Segundo ele só as normais, porque as neuróticas reagem.
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AcheiUSA – O que sua mãe falava sobre isso?
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Joffre – Minha mãe não falava nada. Depois, teve um outro programa, que Murilo Neves indagou ao Nelson: “Vejo na tua mão esquerda uma aliança. O que você tem a dizer sobre isso?” Ele, sem pensar, diz: “Ora, meu caro, eu disse que mulher gosta de apanhar, nunca disse que homem gosta de bater.”
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AcheiUSA – Qual história que mais chamou sua atenção no convívio com seu pai?
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Joffre – Nós morávamos no Andaraí numa rua, meio fechada, onde havia umas 40 casas de cada lado. Teve um caso de uma menina, violinista, que se apaixonou pelo professor de música. Bom, este casal fugiu, o homem era casado e a menina menor de idade. Daí foi aquela perseguição toda da polícia. Papai estava na redação do jornal Última Hora e o casal apareceu lá, conversaram e ele escreveu sobre esta história, dizendo que era um dos amores mais lindos que vira na vida. Aí a mãe da menina fez um abaixo-assinado para todo mundo na rua assinar. Nele, dizia que o cara desviara sua filha e que a família queria recebê-la de volta, essa coisa toda. Todos os vizinhos assinaram, inclusive minha mãe, mas meu pai foi o único que não, alegando que não iria assinar a sentença de morte desse casal. Dias depois eles se mataram, tomando veneno.
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AcheiUSA – Onde Nelson buscava tanta inspiração para escrever?
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Joffre – Meu bem, meu pai, aos 13 anos de idade, foi repórter de polícia, de freqüentar necrotério, cenas de crime etc... Ele aprendeu o que era a vida.
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AcheiUSA - Recentemente Luma de Oliveira desistiu de fazer a segunda adaptação da peça A
Dama do Lotação para o cinema, alegando estar com vergonha dos filhos por causa das cenas de sexo. Como você recebeu esta notícia? .
Joffre – Acho que a Luma tem razão. Ela não quer que a imprensa ache que ela é uma tarada, que o marido teria tido razão de separar dela, enfim, coisas assim, bem pessoais. Acho que é a imprensa que não permite, porque pode dizer que Luma vai fazer sexo explícito no filme, mas é claro que não vai! Luma não é atriz e sim modelo. A primeira adaptação foi feita em 1978 e hoje em dia pode passar às oito horas da noite na televisão numa boa, mas na época era escandalosíssimo.
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AcheiUSA – O que você acha dessa diferença na televisão brasileira de ser possível passar cenas de sexo às oito horas da noite e na TV americana colocarem uma tarja nos órgãos genitais, em qualquer horário?
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Joffre – Amorzinho, eles são muito cínicos. Desculpa dizer isso, mas é o que eu acho. Eles são hipócritas, não é nem cinismo, é hipocrisia mesmo. Pecado por pecado, eles dão um banho na gente.
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AcheiUSA – Em que sentido?
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Joffre – Pecado carnal. Aqui têm todas as perversões do mundo e a barra é muito pesada. Têm casas de perversão, em Nova York está cheio de casas de masoquismo, e por aí vai. Nunca ouvi falar que no Brasil tivesse uma. A sociedade americana permite e finge que não permite. E, na televisão, é tudo proibido, nem palavrão pode falar. Aparece o seio da irmã do Michael Jackson e é um escândalo nacional.
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AcheiUSA – Você não acha que o americano quando vê a exposição na tevê brasileira ou mesmo nas praias cariocas não pensaria a mesma coisa da gente?
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Joffre – Eles podem até pensar, mas isso é ignorância. Nós somos autênticos e não hipócritas. Inclusive, uma das coisas que papai mostrou à nossa sociedade é que pecados existem e precisamos melhorar a condição de ser humano para não entrar nessa. Quando Nelson Rodrigues bota perversão em sua obra, faz com intuito de salvar o espectador de cometer a perversão. Amor, vamos tentar não achar que não há sensualidade em você, em mim, no teu chefe ou na minha secretária. Todo mundo é um ser sexual, sem exceção. Vira e mexe e todos pensam em sexo, isso é a coisa mais natural do mundo. É um dos teores da necessidade da procriação.
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AcheiUSA – Você acha que pelo fato de Nelson Rodrigues ter ido tão a fundo nestes problemas da sociedade, suas peças nunca foram encenadas na Broadway, por exemplo?
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Joffre – Não, absolutamente. Em setembro, uns nova-iorquinos rebeldes, que não se conformam que Nelson Rodrigues não seja conhecido nos EUA, farão um seminário sobre sua obra, com patrocínio da New York University. Isso ninguém sabe. É um furo de reportagem teu, sem querer. Alex Ladd e Terry O’Reilly poderão falar mais detalhes sobre este projeto.
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AcheiUSA – Quem está fazendo a tradução para o inglês das peças de Nelson?
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Joffre – Já fiz 12 traduções das peças de papai, com Toby Coe, e tem 929 páginas, distribuídas em dois livros. Demorou 10 anos para ficar pronta, trabalhamos de 1992 a 2002. Levou muito tempo, porque eu moro no Brasil e Toby nos EUA. As pessoas podem encontrar estes livros na Amazon.com.
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AcheiUSA – Como foi a repercussão da montagem, em 1997, do Vestido de Noiva em Los Angeles?
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Joffre – Maravilhosa! Foi no Theatre Forty, em Beverly Hills. O diretor Paul Warner e os atores americanos ficaram empolgadíssimos, e sabiam que estavam trabalhando em algo importante. Estive lá no lançamento e a repercussão foi tamanha que venderam toda a temporada em poucos dias. Isso me fez lembrar do papai, dizendo: “Se eu escrevesse em inglês, hoje estava rico.”
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AcheiUSA – E o clima do Rio de Janeiro, retratado nas peças do Nelson, como fica em montagens no exterior?
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Joffre – Meu amor, tudo que é local atrai. Outra coisa, papai trabalhava com cenários localizados e os sentimentos estampados em sua obra sempre serão universais.
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AcheiUSA – O Vestido de Noiva, que você dirigiu, já tem alguma previsão de Quando será lançado no Brasil e quando retornará aos EUA?
Joffre – Vamos participar do Brazilian Film Festival of New York também. Será exibido nos Dias 10 e 15 de julho, no Tribeca Cinemas. Já no Brasil, será lançado no final de agosto ou início De setembro.