VESTIDO DE NOIVA, de Joffre Rodrigues - A belíssima adaptação da peça mais famosa de Nelson (e uma das melhores do Brasil e do mundo) para cinema

A adaptação do roteiro foi uma junção da prioridade na fidelidade ao texto com o fazer cinema. E não foi feito apenas cinema, mas sim cinema sobre uma peça de Nelson Rodrigues que ninguém havia se atrevido a tentar. O filme foi recheado de detalhes, detalhes que não pertenciam à obra original. O início do filme é também o início da vida na casa (que é um tema importantíssimo da obra), inclusive sendo mobiliada. Começa o filme, começa a vida na casa. . A poesia e a leveza do plano da alucinação é o ponto mais forte da obra, pois é o que buscava a alma de Alaíde e ela foi atendida no filme. Seus sonhos foram legitimados (a sua alma foi priorizada). O peso da realidade foi bem dosado. A memória mostra as baixas motivações das personagens e a visão bem humorada das situações desagradáveis foi uma opção genial, que não mudou o caminho do texto, só a forma de contar. Uma feliz forma de contar. Ótimas músicas no bordel. Roteiro cheio de detalhes significantes, percebidos não só de uma vez, mas a cada reprise do filme, encantando por seus significados. Bela direção de atores, que estão harmonizados, em sintonia e generosos uns com os outros. . Todas as mudanças do texto reforçaram a intenção da obra: O sutil humor, a cena do altar, o bouquet da Clessy para Alaíde, o Pedro como cafajeste (autêntico cafajeste rodrigueano)...

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A Marília Pêra foi dirigida, e contribuiu, para que madame Clessy tivesse um humor que não existia no texto. Joffre, também em outros momentos, foi o responsável por pitadas de humor no filme, mais uma vez inexistentes na obra original. Um humor com leve tom de ironia. . A cena em que madame Clessy responde: “Punhalada não, na-va-lha-da”, foi genial. Foi outra modificação que beneficiou a própria obra, pois reforçou a personagem do texto, já que a Madame Clessy se envaidecia por ter sido assassinada por um menino de 17 anos, além do humor.
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O palitinho cai da boca de Pedro quando ele vê Alaíde simulando ser madame Clessy, mas “segura” o desejo e a repreende por seu comportamento “imoral”. Ele a queria como a esposa de sua visão machista (hipocrisia e a repressão sexual sempre retratada por Nelson e valorizada na cena do palitinho).

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Alaíde, por sua vez, quer fugir da repressão moral em que vive se refugiando na alucinação, mas no seu sonho de liberdade, de ser uma prostituta de classe, se entregaria a Pedro (o cliente do bordel tem a cara de Pedro). Porque ela queria Pedro, mas não na vida que levava. Ela, como prostituta, teria a sonhada liberdade estando, ao mesmo tempo, com seu amor Pedro. .
Nesse embaraço da fuga pelo inconsciente, Alaíde cai em outro engano. Ela se refugia no mundo da alucinação, o mundo que desejava, mas quando está nesse mundo, tenta buscar sua vida de volta, já que fica vazia, não consegue viver sem um passado. Estava presa à sua realidade frustrante, motivada por sentimentos viciosos e baixos, dos quais não conseguia se desfazer, mesmo quando pensava estar vivendo seu sonho de amor e liberdade. (visão de mundo pessimista – Nelson não perdoa). Quando ela entrega o bouquet à Lúcia, ela mostra que perdoou Lúcia e finalizou sua relação com o passado. Em seguida, Clessy tem uma atitude de generosidade, amizade e piedade para com Alaíde, entregando outro bouquet à ela, indicando que finalmente Alaíde seguirá adiante. (Belíssima cena). .
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O nu no hospital: Esse nu chocou muita gente, mas não se pode dizer que havia vulgaridade nesse nu, se não havia nesse nu nem erotismo! E foi por isso que chocou, porque foi um nu sem amor. Sem intenção de amor, um nu de morte. Quando os médicos tiraram a roupa de Alaíde naquele hospital daquela forma tão fria, rápida (enquanto ela está gemendo em delírios), ela se assemelhou a um objeto. Um pedaço de carne. Quando um dos médicos falou, no meio dos comentários sobre a cirurgia, “bonito corpo”, a idéia de Alaíde como objeto e a frieza dos médicos foram reforçadas. Por isso esse nu chocou, porque foi um nu sem amor, sem glamour, pessimista (como Nelson) e real. Por trás do desejo sexual está o amor, a necessidade de ser amado(a). Mas não tem nenhum amor ali, só o corpo. Se o desejo sexual se contrapõe à morte, então essa nudez foi uma forma de representar a morte. Essa cena fez a gente refletir em como fomos ou seremos tratados numa situação dessas. Nos lembrará que estaremos nus, dessa forma. De uma forma morta. Ou seja, já entramos sem sentido pela anestesia e já somos tratados como mortos.
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"Não há nudez mais humilhada, mais ofendida, mais ressentida que a da autópsia. Velhos, moços, meninas, mocinhas, garotos, todos são espantosamente despidos. Ficam tão nus". Nelson Rodrigues.

. O nu da cena do bordel, da imaginação da Alaíde, deveria chocar mais, pois estava cheia de erotismo. Mas não, foi uma cena bonita, porque foi um nu de amor e não de morte.

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No final, quando se passam os créditos, repete-se a fala de Alaíde: “Ou Ave-Maria de Gounod ou de Schubert, outra não serve”. Com a música de fundo e a voz de Alaíde justo depois que, já morta, passa o bouquet para Lúcia, ou seja, desiste, se resigna, representa, com toda a ternura e angústia possível, o sonho de casamento acabado. .

As mudanças para se fazer cinema foram feitas, mudanças que realçaram mais ainda a obra original. Basta perceber a quantidade de detalhes e seus significados, mas deve-se estar com o paladar bem apurado para percebê-los, porque realmente essa obra não é para qualquer um. Ponto para a excelente direção do Joffre Rodrigues, que, além de tudo, soube escolher muito bem os atores e, mais, soube dirigí-los brilhantemente. Ponto para os atores que souberam receber a sugestão do diretor e, mais importante, souberam aplicar essa sugestão divinamente. Foi um lindo trabalho!

Vestido de Noiva _ Trailer:

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Antes mesmo de ser lançado no Brasil, "Vestido de noiva" já tinha na bagagem sessões em festivais de Paris, Nova York e Miami, onde foi ovacionado!
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O filme levou o Troféu Estrela do Mar de Melhor Filme e nas categorias Melhor Produção (Joffre Rodrigues), Melhor Direção de Arte (Alexandre Meyer), Melhor Atriz Coadjuvante (Letícia Sabatella) e Melhor Figurino (Rita Murtinho). .
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Antes da estréia, teve seu roteiro analisado por José Wilker, Fernanda Montenegro, Camilla Amado e Sábato Magaldi, tendo sido aplaudido e admirado com unanimidade! . . .
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. "Acredito que o filme do Joffre Rodrigues, Vestido de Noiva, tem potencialidade para ser um filme que encontre o seu público. É um filme com boa qualidade, com belo acabamento técnico, boas atuações e com um roteiro, a partir da peça Vestido de Noiva, primoroso. É inspirado em uma das melhores peças de teatro já escritas no Brasil. Agora, para este filme entrar no mercado americano é uma coisa de “adivinhação”. Este mercado é extremamente competitivo, restritivo para qualquer produto estrangeiro, em função do poder das grandes distribuidoras e exibidores, fazendo com que o público tenha pouco acesso ao cinema estrangeiro.” (José Wilker).

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Sobre Joffre Rodrigues:

Joffre Rodrigues e a atriz Letícia Sabatella

Iniciou sua carreira no cinema em 1963, quando produziu “Bonitinha mas Ordinária”, um filme baseado na obra de seu pai, Nelson Rodrigues.

Em 1964 produziu “A Falecida”, também de Nelson Rodrigues, com Fernanda Montenegro e direção de Leon Hirszman - um verdadeiro sucesso perante a crítica especializada no Brasil e no Exterior.

No ano seguinte produziu em teatro duas peças: “Vestido de Noiva”, marco da dramaturgia nacional e “Toda Nudez será Castigada”, posteriormente transformada em filme por Arnaldo Jabor, também com muito sucesso em todo o mundo, ganhando inclusive o “Urso de Prata” no Festival de Berlim de 1975.

Após dirigir alguns curta-metragens, comerciais e estudar cinema nos Estados Unidos durante um ano, trabalhou na TV Globo como produtor e diretor e no Jornal dos Sports como Relações Públicas.

Depois de um período de 7 anos afastado do Brasil, retornou e produziu e roteirizou seu maior sucesso até hoje “Perdoa-me por me Traíres” ( do qual foi também roteirista ) que bateu recordes de bilheteria.

Em seguida produziu “Tanga - deu no New York Times?” onde o nosso grande e saudoso humorista e cartunista Henfil, que roteirizou e dirigiu o filme junto com Joffre.

Em 1989 produziu “Boca de Ouro”, se aventurando a uma brilhante adaptação do texto, transplantando o universo da contravenção do jogo do bicho que era o original do texto escrito em 1959, para o universo do trafico de drogas, mais adequado à realidade da época em que o filme foi feito. Dirigido por Walter Avancinni, foi vendido para a 10db para distribuição universal. Em 1992 realizou em regime de co-produção com aquela empresa americana o “sequal” Boca, continuação em inglês do “Boca de Ouro”.

Em 1993 foi convidado pela KCK Productions de NY para produzir o filme “The Monk and the Hangman’s Daughter” que veio a ser dirigido por Walter Lima Junior. No “Monk” atuou como produtor, produtor executivo, “line” producer e diretor de pós-produção.

Tendo militado criativamente em todas as produções que realizou Joffre, atendendo a um antigo pedido do pai, adaptou, produziu e dirigiu “Vestido de Noiva”, a peça mais importante do Teatro Nacional.

Traduziu doze peças para o inglês, todas já publicadas e cujos livros estão sendo vendidos em todo o mundo.

Projeto futuro: "Tanga - Deu no New York Times?" Através da JBR Filmes, produtora em que é titular, se prepara para um novo projeto: Transformar o filme em Desenho Animado. Roteiro original de Joffre Rodrigues ( Paralelo Zero ) e do saudoso cartunista Henfil ( Kubanin ).

Projeto aprovado: "Floresta Ferida". Um filme de longa-metragem com um grande apelo ecológico. Em total conformidade com os temas da atualidade, tendo com linha central o desmatamento da Floresta Amazônica.

Site: http://jbrfilmes.com/

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Entrevista: . "Ainda em vida meu pai me pediu para fazer este filme. Como eu era só produtor, sempre achei que ele tivesse me pedido para produzir. Mas eu teria que entregar na mão de um roteirista, e eu queria fazer algo leal ao texto. Resolvi fazer o roteiro, que foi delirantemente aplaudido por pessoas como Fernanda Montenegro, Ruy Castro, Camila Amado, etc. Quando "nêgo tarô" pelo roteiro, eu falei: então vai me caber dirigir esse filme, porque se der para um diretor, ele vai mexer no roteiro. Isso começou em 1996. Levei oito anos para captar patrocínio e dois para fazer o filme. Pode parecer piada, mas é verdade.”

“Eu não tenho charme para captar, é a coisa mais incrível do mundo. Eu tinha um projeto maravilhoso, um elenco fantástico, mas não conseguia patrocínio. Provavelmente, o cara me via, então com 60 anos, gordo, cabelo branco, primeiro filme a ser dirigido, e pensava: só vai dar meleca...” .
. A adaptação

“Primeiro, ninguém via os elementos cinematográficos no texto original como eu via. Então eu pensei que ou eu estava errado, ou eles. Mas quando entreguei o roteiro para todas estas pessoas que falei, todo mundo aprovou. Segundo a Camila Amado, foi o melhor roteiro cinematográfico da vida dela.”

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“A Simone (Spoladore), pediram para ela ir lá em casa. Eu cheguei em casa e falei: "Ih, caramba, que mulher linda". Para a Madame Clessi, eu inicialmente tinha pensado na Vera (Fischer), mas ela já me assustou logo com o negócio de grana. Para mim era uma fortuna. Acabei pagando a mesma coisa para a Marília (risos). Mas aí você se encontra com a Marília e faz xixi nas calças. É um desbunde. A mulher, com 62 anos de idade, faz cenas de sexo. E com aquele esplendor, com aquela atuação que é dela mesma.” .
Na foto: Nelson e Joffre
A paternidade

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“Com exceção d'A Falecida, meu pai gostava de todas as montagens de suas obras. Tinha o nome dele, ele achava ótimo. Mas ele achava a Falecida do Leon (Hirszman) muito triste. E a obra, segundo ele, era uma coisa mais alegre, mais ligeira.” .
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A família ..
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“Tem uma fala da Marília no filme que é: "Que família... (em tom irônico). Todas .as famílias do mundo são "que família...". Mas eu achava bacanérrima minha relação com meu pai. Ele era companheiro, amigo, tudo. Se eu tive uma relação boa com meu pai, paciência. Acontece, nas melhores famílias...”
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. CRÍTICA:

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Hoje, cinema é mais indústria do que qualquer outra coisa. Faltou verba para uma distribuição ao mínimo da altura que o filme merece, faltou verba para a divulgação... Faltou "talento" para jogar esse jogo sujo que, infelizmente, decide quem entra e quem fracassa e sobrou para fazer arte. Qual talento venceu? Um filme apaixonante que a maioria não viu, porque quem manda na arte nesse país é quem nada entende dela, nem pretende entender.